Projeto Âncora: semente de inspiração por uma nova educação

“Que a paz, a bondade e o bem sejam seus parceiros diários no caminho dessa festa que é a vida!” Walter Steuer — Fundador do Projeto Âncora

Vídeo institucional sobre o projeto Âncora

 

É por esta frase, em destaque em um grande poster, que fomos recebidos na entrada do Projeto Âncora, em Cotia (SP). Imediatamente nosso olhar foi atraído por uma grande e colorida lona de circo, na parte central de um lindo terreno arborizado. Dentro da lona podíamos ver crianças fazendo suas acrobacias com largos sorrisos no rosto, às 9am de uma terça-feira.

Vista aérea do Projeto Âncora — Cotia (SP)

“O circo é o coração do Âncora, aqui é onde tudo acontece”, nos explicou uma das alunas durante a visita guiada pela escola. Sim, o Projeto Âncora é uma escola. E sim, são os alunos que guiam a visita e apresentam a escola para os curiosos visitantes.

Apesar de ter sido criado em 1995 como um organização social focada na aprendizagem do contra-turno escolar (extra curricular), desde de 2011 o Projeto Âncora passa a funcionar também como uma escola formal de ensino fundamental e ensino médio. Mas logo na entrada pode-se perceber que os ares não são como de qualquer escola. A proposta pedagógica do projeto, bastante inovadora, é de tirar qualquer adulto da zona de conforto (normalmente um bom sinal de que a escola está caminhando no caminho da inovação).

Desenhada com o auxílio do educador José Pacheco e inspirada na experiência da Escola da Ponte, em Portugal, a proposta pedagógica do projeto tem como foco o desenvolvimento da autonomia — dos educandos e dos educadores — , valorizando o aprendizado por meio das relações. Estruturas cristalizadas da educação formal são deixadas de lado, abrindo espaço para novas formas de aprendizado e liberando tempo da equipe para um olhar individualizado e cuidadoso junto às crianças. Aqui não tem divisão dos alunos por séries, nem avaliação dos alunos por provas, nem organização das salas em cadeiras enfileiradas, nem divisão das aulas por disciplinas (na verdade, aqui esse conceito de aula já é desconhecido!). É preciso realmente deixar de lado nossos automatismos, nossas normoses, nossas inseguranças, para perceber as sutilezas de uma nova proposta de aprendizado que se surge quando tiramos da frente o que não nos serve mais.

No Âncora tudo está a serviço do pedagógico, desde um processo de compras até a organização das visitas, tudo é feito com participação dos alunos e tudo é encarado como oportunidade de aprendizagem. “Nenhuma burocracia deve sobrepor o pedagógico, ou ela está a serviço do aprendizagem ou ela não serve” afirma a diretora do projeto (que segundo ela, só possui este cargo para assinar papéis por exigências legais, porque na prática do Âncora nada diferencia a diretora de todos os outros educadores).

Neste ambiente, um conflito entre dois alunos ou alunas no corredor não deve ser prontamente interrompido por imposições de disciplina, mas sim deve ser acolhido como uma oportunidade de aprendizado, onde o conflito é resolvido com muito diálogo e pode gerar oportunidades de estudo. A gestão dos espaços e projetos da escola não deve ser gerido pela equipe da escola, mas sim conduzido por um grupo de trabalho que envolva também os educandos no processo de decisão e gestão.

No dia-a-dia, as alunos e alunos vão aprendendo a planejar a sua rotina e o seu aprendizado de acordo com os seus interesses. A organização e planejamento de tempo e espaço é um pilar importante do aprendizado na escola e a autonomia vai sendo conquistada de forma gradativa, conforme o ritmo de cada criança. Quando a criança conquistou essa habilidade, ela passa a ser responsável por organizar o seu tempo na escola, tendo bastante liberdade para fazer as atividades conforme o seu interesse, e sendo orientada pelos educadores na elaboração e condução de seus roteiros de estudo. Ela vai estudar o que estiver interessada em estudar (de gastronomia à intercâmbio) e da forma que estiver interessada em estudar (embaixo da árvore, dentro da sala e quem sabe até fora da escola). O aprendizado das diversas disciplinas tradicionais (matemática, geografia, história, etc) se dará de forma transversal a estes temas, cumprindo as diretrizes curriculares nacionais.

A proposta pedagógica é cheia de dispositivos simples, belos, amorosos e comprometidos com o aprendizado. Você pode conhecer mais sobre eles neste link ou até planejando uma visita para ver com os próprios olhos, então não vou entrar nestes detalhes nesse texto. Gostaria de aproveitar para compartilhar duas reflexões que me acompanharam durante a visita: 1) como este ambiente facilita e estimula a escuta interna das crianças, 2) como estes dispositivos e inovações podem ser levados para as milhões de crianças do sistema público de educação.

1) Como este ambiente facilita e estimula a escuta interna das crianças?

“Qual o seu sonho?”, “O que você prefere?”, “O que você mais quer fazer agora?”. Estas são perguntas que muitas vezes demoramos para ouvir em nossas vidas, e não a toa, muitas vezes nós adultos ficamos paralisados sem respostas quando estas questões nos são postas. Escutar a voz interna que nos ajuda a responder estas perguntas é um desafio para a vida toda, ainda mais para quem passou a primeira década da vida sem exercitar este olhar. A realidade é que muitas vezes nós não atentamos para o que sonhamos, como funcionamos, o que nos bloqueia, o que nos impulsiona.

Foi este aspecto que mais me instigou no Âncora. Me parecia um desafio muito grande colocar estas questões para os alunos e alunas de tão poucos anos de vida. As crianças do projeto são estimuladas desde cedo a serem autônomas, desenharem seus planos para o dia, para os estudo e para a vida. E dá para planejar a vida e quiçá o dia sem conhecer a si mesmo?

Para além da autonomia, para mim o grande o valor dessa proposta pedagógica é a escuta interna diária e constante que estes seres humanos desenvolvem, tão cedo na vida. Com este estímulo e espaço na infância, é possível imaginar a naturalidade com a qual a escuta acontecerá ao longo da vida? Para mim, aí está a grande contribuição deste modelo de educação para a sociedade. Todos os conflitos externos nascem de conflitos internos, muitas vezes reprimidos e ignorados. Uma pessoa que escuta e acolhe suas questões internas desde a infância certamente terá uma outra relação consigo e com o mundo externo, e são estas novas relações que permitirão um desenho social menos desigual, violento e conflituoso.

É lindo ver a naturalidade com que as crianças do Âncora falam de si mesmas. Não é preciso um momento específico para o auto-conhecimento, pois ele está totalmente permeado na rotina escolar: com diálogos horizontais e constantes, com auto-avaliações, com participação, com autonomia, e com uma boa dose de respeito e amor.

2) Como levar estes aprendizados para as grandes redes de ensino?

O projeto Âncora recebe visitas de centenas de educadores de escolas públicas e privadas, curiosos com a inovadora proposta pedagógica e desafiados a repensar as suas próprias rotinas em sala de aula.

A proposta é tão ousada nas suas práticas que muitas vezes pode até desanimar quem está no dia-a-dia de escolas “tradicionais”, públicas ou privadas, por parecer distante de suas realidades. Quando a mudança que vemos pela frente é muito grande podemos ficar paralisados e estagnados em nossa zona de conforto.

Mudar a proposta pedagógica da escola de forma integral é realmente um trabalho de muita energia, compromisso da equipe, paciência, resiliência e amor. Quando o contexto não permite uma mudança radical, sempre há pequenas práticas e pequenos passos que podem ser dados e que já trarão benefícios e novos desenhos para as relações em sala de aula e para o aprendizados dos alunos. Por isso, listei abaixo algumas ideias simples do Âncora que podem ser testadas em escolas públicas (e privadas!):

  1. Grupos de trabalho responsáveis pelas coisas da escola: no projeto Âncora a gestão da escola não é feita pelo Diretor e pelo Coordenador Pedagógico, pois todo processo de gestão e toda decisão pode ser também uma experiência pedagógica. Na escola são organizados grupos de trabalhos, com educandos e educadores, responsáveis por cuidar dos espaços e dos projetos das escolas. É uma ótima forma de ampliar o senso de responsabilidade dos alunos perante o espaço escolar, aumentar a participação das famílias e decentralizar o processo decisório! Além disso, a criança já vai se preparando para “a vida fora da escola”.
  2. Tudo (tudo!) a serviço do pedagógico: toda experiência dentro do ambiente escolar pode ser usada a serviço do processo de aprendizagem, mas para isso é preciso atenção plena ao que está acontecendo e abertura para participação. Por exemplo: um conflito entre dois alunos no corredor, ao invés de ser interrompido e resolvido na sala da diretoria, pode abrir espaço para um longo momento de diálogo, uma roda de conversa, um novo projeto. Um processo de reforma de um espaço escolar, ao invés de ser resolvido pela diretoria, pode ser compartilhado com as crianças para que elas aprendam sobre um projeto, com conceitos de matemática, história, artes e etc.
  3. Auto-avaliação: no Âncora, os alunos nunca são avaliados exclusivamente pelos educadores. Cada criança deve também ser responsável pela sua auto-avaliação e deve haver uma conversa sobre as diferentes percepções. Este exercício permite que ela desenvolva a auto-observação, o senso crítico, o compromisso, além de criar uma relação horizontal de confiança e respeito com o educador.
  4. Aprendizado por projetos: ainda que se mantenham as disciplinas convencionais, é possível abrir espaço para que as crianças escolham temas de seu interesse para trabalharem em projetos interdisciplinares, que se expandam para além da sala de aula e da escola. Um exemplo do projeto Âncora é um projeto de intercâmbio, onde os alunos estão criando um plano para fazerem um intercâmbio com a comunidade de Tamera em Portugal. Para isso, já aprenderam sobre geografia, cultura, história, línguas e etc. E não precisa nem dizer o quão empolgados eles estão com estes estudos né?
  5. Valores compartilhados: o projeto Âncora tem cinco valores fundamentais que norteiam as relações na escola — Respeito, Solidariedade, Afetividade, Honestidade, Responsabilidade — e que estão na ponta da língua e nas práticas de todos os educandos e educadores. A equipe chegou a estes valores por meio de um profundo trabalho de escuta do grupo, para identificar e conceituar quais valores os unia. Quais valores norteiam a sua escola? O que une as pessoas naquela espaço? Discutir e definir isso pode ser um processo muito rico de aprendizado e de construção de um espaço acolhedor para o aprendizado, além de oferecer às crianças uma base ética que ela levará para a vida toda.

Essas são algumas das incontáveis de ideias que podem ser levadas para qualquer escola. Enquanto temos desafios estruturantes para inovar e promover um novo modelo de educação em larga escala, temos a sorte de ter sementes de exemplos, como o projeto Âncora, que nos permitem redesenhar os cotidianos das escolas nas pequenas práticas. Não percamos essa oportunidade, pois são os pequenos passos que constituem as longas jornadas.


Colaborem com o projeto Âncora, por uma nova educação, por novas relações, por um novo ser humano!

E para finalizar, como agradecimento ao Âncora pela visita e pela coragem ousada de existir e de se reinventar frente a tantos desafios e dúvidas, gostaria de convidá-los a ajudar o projeto! Precisamos que iniciativas como estas se fortaleçam e tenham continuidade, pois são sementes de uma mudança urgente na sociedade. Como vocês devem imaginar, gerir uma escola assim já é um baita desafio ideológico e pedagógico, imaginem financeiro.

Para quem se sentiu inspirado(a) pela iniciativa, neste link você encontra diversas formas de colaborar.

Quem quiser ajudar especificamente o projeto de intercâmbio dos jovens da escola, também pode fazer isso por meio deste link.

Sigamos inspirados!

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