A Educação Integral proposta por Mirra Alfassa, The Mother

“Essencialmente, existe apenas uma única razão verdadeira para viver: é conhecer a si mesmo. Estamos aqui para aprender – para aprender o que somos, por que estamos aqui e o que temos de fazer.” The Mother

 

Cheguei ao meu próximo destino: Auroville Kindergarten. Trata-se de uma escola de ensino infantil localizada em Auroville, na Índia, na qual vou voluntariar nos próximos 3 meses. A escola segue o visão de Educação Integral proposta por Sri Aurobindo (indiano) e Mirra Alfassa (francesa) e o interesse de conhecer um pouco mais a fundo essa visão foi o que me trouxe até aqui do outro lado do planeta. Por isso, decidi fazer um post um pouco mais teórico compartilhando um humilde resumo do que estes dois autores apresentaram como proposta para educação infantil.

Aurobindo Akroyd Ghosh (1872-1950), mais conhecido como Sri Aurobindo, foi um filósofo, nacionalista, escritor, poeta e yogue indiano. Depois de se envolver por anos com o movimento político pela independência da Índia – sendo um de seus principais líderes, Sri Aurobindo dedicou o restante de sua vida aos estudos do progresso e evolução espiritual humana, e para o desenvolvimento de uma nova filosofia do yoga, posteriormente conhecida como Yoga Integral. Mirra Alfassa (1878-1973), mais conhecida como The Mother, foi uma colaboradora de Aurobindo. Nascida na França, mudou-se definitivamente para Índia em 1920 e passou a liderar os projetos de Sri Aurobindo depois que ele se retirou em reclusão até a sua morte.

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Mirra Alfassa fundou, em 1951, o Centro Internacional de Educação de Sri Aurobindo, com o objetivo de desenvolver uma nova alternativa para a Educação, a qual ajudaria a humanidade a se abrir para uma nova consciência.

A partir dos estudos e das práticas propostas nesse Centro, surge um modelo para Educação, então chamado de Educação Integral, que considera cinco aspectos principais, correspondendo às cinco principais atividades humanas: a física, a vital, a mental, a psíquica e a espiritual. Nessa proposta, estes aspectos vão se desenvolvendo de forma cronológica conforme o desenvolvimento da criança, mas nunca um aspecto deve substituir o outro. Eles devem se iniciar antes do nascimento, na Educação e cuidados da mãe, se complementando até o fim da vida.

Segundo os autores, o primeiro aspecto da Educação – a Educação Física – é o mais dependente de método, ordem, disciplina e processo. É nele que serão trabalhadas as rotinas de alimentação saudável, sono adequado, exercício físico, práticas de relaxamento, desenvolvimento adequado de todos os membros, o autocuidado e a higiene e compreensão dos ciclos de saúde e doença. Segundo Alfassa, a Educação Física contempla três aspectos prioritários: a disciplina e o controle das funções do corpo, o desenvolvimento metódico e harmonioso de todas as partes e de todos os movimentos do corpo, e a correção de deformidades.

A Educação Vital, o segundo aspecto dessa proposta de Educação integral, contempla o desenvolvimento e o uso adequado dos órgãos do sentido e o conhecimento, controle e transformação do caráter. Em relação aos sentidos, os autores afirmam que se o estímulo adequado começar cedo na vida da criança, os sentidos podem se desenvolver para muito além do esperado e conhecido. Algumas tradições afirmam que o Homem não tem apenas cinco sentidos, mas sim sete sentidos e, em alguns casos, até doze. Nesse aspecto da Educação é muito importante que se permita o desabrochar adequado do senso de beleza e harmonia na criança, seja na natureza ou em criações humanas.

Já quanto ao segundo aspecto, o caráter, os autores fazem primeiro uma importante distinção da visão proposta em relação à abordagem comum no ocidente. Apesar de o ocidente comumente abordar o caráter como algo inalterável, essa proposta acredita no potencial de autotransformação e aperfeiçoamento do mesmo em um indivíduo. Além disso, eles colocam que a cultura ocidental coloca a felicidade como objetivo último da vida, como se a plenitude fosse encontrada no prazer. Segundo os autores, a plenitude não está no prazer e o caráter sempre terá aspectos antagônicos, de luz e sombra, em sua expressão. O seu desenvolvimento demanda paciência, obstinação e profunda auto-observação.

Para a Educação Vital no desenvolvimento do caráter, dois aspectos são essenciais: a auto-observação e a vontade. É essencial que as crianças aprendam a estar conscientes de seus próprios atos e movimentos, do que fazem e das razões pelas quais fazem. É papel da Educação incentivar que os educandos observem seus instintos, suas luzes e suas sombras. Aprendam a adotar o constante papel de testemunhas de si mesmos. Porém, para um aprimoramento constante e efetivo, faz-se também essencial o desenvolvimento da vontade de progresso e perfeição. Essa força de vontade deve ser instigada na criança a partir do momento que ela passa a manifestar suas primeiras vontades. É importante que o desenvolvimento do caráter na Educação não se dê por meio de coerção, repreensão ou abstinência. Apesar de estas táticas aparentemente apresentarem resultados rápidos, não serão resultados profundos e efetivos e poderão suprimir as interferências saudáveis do aspecto vital da criança.

A Educação Mental é o terceiro aspecto da proposta de Educação apresentada. Apesar de ser onde estão concentradas as energias do sistema educacional contemporâneo, é uma concepção mais ampla de desenvolvimento mental do que a considerada atualmente. A educação mental deveria passar por cinco fases distintas e complementares: o desenvolvimento do poder de concentração e da capacidade de atenção; o desenvolvimento das capacidades de expansão, alargamento, complexidade e riqueza mental; a organização das ideias em torno de um objetivo central, um ideal superior ou uma ideia luminosa que sirva de guia no decorrer da vida; o controle do pensamento e a rejeição de pensamentos indesejados, sendo capaz de pensar apenas o que e quando se quer; e o desenvolvimento do silêncio mental, a calma perfeita que permite maior abertura e receptividade para inspirações vindas de partes superiores do ser.

O quarto e o quinto aspectos da Educação Integral, a Educação Psíquica e a Educação Espiritual, são apresentados de forma conjunta pelos autores. Segundo eles, os três aspectos descritos anteriormente focam em faculdades humanas, porém o desenvolvimento potencial não para aí. A Educação psíquica e a espiritual tem como foco o desenvolvimento da escuta de uma consciência ampla e da verdade absoluta que habita em cada ser, e deve estar no centro do processo educativo.

The Mother (2015) coloca que há um potencial de consciência ampla dentro de cada ser humano, que o transcende e habita em si, se manifestando desde criança. Muitas vezes, os pais e educadores não sabem como lidar com isso e a criança vai sendo condicionada a reprimir estas manifestações dando valor e credibilidade apenas aos aspectos exteriores a si mesmo. Também é comum que o processo educativo seja conduzido de forma que a criança fique o mais inconsciente possível dessa presença psíquica superior.

Segundo a autora, este campo de desenvolvimento normalmente vem associado à religião ou ao misticismo, meramente porque a religião dá espaço para o desenvolvimento deste aspecto, mas não precisa ser assim. Pode ser pelo questionamento filosófico da verdade, por exemplo, mas todos os caminhos levarão à mesma experiência.

A experiência é questão central na Educação psíquica, segundo The Mother, sendo muito mais importante do que a explicação racional ou a classificação dentro de um campo do conhecimento (seja ele a religião ou a filosofia). A construção racional do saber psíquico só alimenta a ilusão da sabedoria e afasta a experiência da verdade.

A Educação psíquica e a espiritual trazem à tona a problemática da razão de existir e do sentido da vida. Está nela a consagração do indivíduo ao seu princípio eterno. É pela presença psíquica que a verdadeira natureza do indivíduo se manifesta e entra em contato com ele e com a sua vida. O que difere a Educação psíquica da Educação espiritual é que a primeira representa uma realização superior no plano terreno, enquanto a segunda representa uma transcendência da manifestação material e o contato com a verdade imaterial e não manifesta. Enquanto no desenvolvimento da Educação psíquica o incentivo está na desconstrução do egoísmo, a Educação espiritual transcende o ego. A primeira é o movimento de descida do divino na matéria e o segundo é o movimento de subida da matéria para o divino. Vale ressaltar que, o divino aqui, não se refere a algo necessariamente religioso, pode ser a manifestação de Deus para alguns, para outros pode ser a natureza, o cosmos, a verdade absoluta, a unidade. un

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Conforme ilustrado na tabela acima, segundo a proposta da Educação Integral desenvolvida por Sri Aurobindo e The Mother, a Educação deve passar quatro aspectos da verdade absoluta: a beleza, o poder, a sabedoria e o amor. Os autores propõem uma reflexão profunda sobre estas quatro manifestações da Verdade e sobre as austeridades a elas relacionadas, que não serão aqui detalhadas. Estas quatro manifestações devem ser conhecidas e desenvolvidas pela criança ao longo de sua vida, de forma a proporcionar libertações de padrões humanos que afastam o ser de sua realização plena. O amor é o aspecto supremo que deverá ser trabalhado na Educação psíquica, proporcionando a libertação do sofrimento humano. A sabedoria é o aspecto trabalhado na Educação mental, propiciando a libertação dos padrões de ignorância e ilusão. O poder é trabalhado na Educação vital, levando à libertação do desejo e controle dos sentidos. E a beleza e a harmonia são aspectos da verdade trabalhados na Educação física, permitindo a libertação das leis materiais de causa e efeito e a manifestação plena da vontade.

Observação: este texto foi retirado de um trabalho acadêmico que desenvolvi sobre Psicologia e Educação, por tanto se você for usar peço que coloque as devidas referências:

CAPITANIO, T. S. Pedagogia da Inteireza: uma concepção Transpessoal de Educação – A importância da integração dos elementos do desenvolvimento psíquico na educação de crianças e jovens. Monografia (Especialização em Psicologia Transpessoal) – Faculdade Vicentina, Alubrat, São Paulo, 2017, 82f.


Mesmo que você tenha sentido algum desconforto com as palavras utilizadas pelos autores, ou alguma incongruência com as suas próprias concepções e crenças acerca da espiritualidade, não deixe de observar a riqueza e integralidade da proposta de Educação apresentada. Ignore as palavras e as crenças e permita-se refletir sobre a importância de considerar diferentes aspectos no desenvolvimento pleno da criança.

Para quem tiver curiosidade de conhecer um pouco mais sobre a visão de Educação de Sri Aurobindo e Mirra Alfassa, vale ler o conteúdo deste link ou buscar os livros deles sobre Educação.

No mais vou compartilhando nos próximos meses um pouco da aplicação prática dessa filosofia no Auroville Kindergarten, escola de ensino infantil que vou voluntariar nos próximos três meses.

 

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