Meu primeiro dia no Auroville Kindergarten

As crianças vão chegando na escolar, uma a uma, ou na garupa da bicicleta e das motos de seus pais ou a pé. Em passos animados percorrem o chão de terra batida da escola até a sua sala de aula.

Eu aguardo ansiosamente a chegada das crianças do grupo azul. Comigo estão as duas educadoras indianas responsáveis por este grupo, Shanti e Poonam. Pouco vão chegando um a um, com a leveza dos seus 5 anos de idade, diferentes em suas cores, seus cabelos, suas roupas e suas nacionalidades. As nove crianças do grupo azul possuem incrivelmente diferentes nacionalidades e ascendências, que incluem países como Índia, Holanda, Alemanha, França, Etiópia, Itália e Israel.

O dia começa com a organização da sala feita pela professora junto com um ajudante do dia. Cada dia uma criança ganha essa desejada tarefa de ajudar na rotina do grupo naquele dia. Velas são acessas, incensos, flores são colocadas na sala, música, tudo gerando um clima bastante amoroso e calmo.

O dia começa com um círculo, um circulo de conversa, meditação, alongamento e músicas. A sala está toda decorada com a cor amarela naquele dia e as crianças também foram convidadas a se vestirem de amarelo. Ao longo de algumas semanas diferentes cores e diferentes qualidades serão trabalhados em sala de aula. Amarelo traz a qualidade de aspiração e as crianças conversam um pouco sobre isso. No círculo cada criança é convidada a se apresentar para mim cantando o seu nome com palmas, da forma como deseja. E todos caem na gargalhada ao ouvir um nome tão diferente quanto “Tati”.

Depois do círculo, cada criança é convidada a escolher uma flor amarela (dentre as várias que estão dispostas na mesa) que mais gosta e a expressar aquela flor em uma pintura. E assim o dia segue com artes, artesanato, brincadeiras ao ar livre, aula de dança, relaxamento e muitas outras sutilezas que não precisam ser compartilhadas todas de uma vez né? 😉

Eu saio do meu primeiro dia de observação no Auroville Kindergarten com o coração agradecido pela oportunidade de embarcar em mais uma jornada, certamente cheia de aprendizados, e com a mente cheia de dúvidas, ansiedades e expectativas. Por aqui ficarei voluntariando nos próximos 90 dias, junto com as crianças de 5 anos do Grupo Azul.

Auroville Kindergarten é uma escola de ensino infantil fundada em 1984 na cidade universal de Auroville, na Índia. A escola segue a proposta de Educação Integral, desenvolvida por Mirra Alfassa e atende cerca de 60 crianças de mais de 10 diferentes nacionalidades.

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Para entender melhor o contexto dessa escola e de onde estou, não deixe de pesquisar e ler um pouquinho sobre Auroville. É um universo a parte que vale muito a pena conhecer.

10 comentários

  1. Meu Deus que escola mais linda!
    Encantada com a sua experiência e muito mais ainda com sua disposição em relatar e compartilhar.
    Gratidão!
    Hoje vou conhecer minha turma nova (26 crianças com 4 anos). Todo ano fico muito ansiosa, pois no início alguns choram muito…
    Estou até pensando nas velas e nas flores, porém ainda me preocupo com o que a direção vai pensar…
    Um abraço grande!
    Felizes dias ai pra vc.

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    • Isabel, você é uma grande inspiração! Espero que tenha um lindo início de ciclo com os 26 pequenos, eles certamente são muito sortudos de ter a chance de te conhecer.
      Entendo sua preocupação em relação a direção, eu não consigo nem imaginar o desafio de levar novas propostas para a sala de aula quando não é um movimento adotado pela escola como um todo. Por isso repito: você é uma inspiração.

      Vai fazendo movimentos e mudanças sutis que eu acredito que elas já são super poderosas.

      Beijo grande!

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  2. Téia, o jeito que você descreve esse começo de dia parece que estamos aí. Muito bom conhecer um pedacinho do que você está vivendo!!! Nao tem nada como experienciar coisas novas assim. Quero saber mais sobre as aulas, o estilo de guiar as criancas ou se guiar por elas, mas é o que você disse, não tem porque dividir tudo agora, esperando as pxmas notícias!

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  3. Tati, descobri seus projeto há pouco tempo, estou amando seus depoimentos das descobertas desta jornada. Que incrível! Obrigada por compartilhar de forma tão rica.
    Fico curiosa em saber o que essas escolas têm em comum; o que são considerados fatores de sucesso; como tratam indisciplina e as diferenças. Hoje se fala tanto dos milennials e suas características ansiosas, rápidos e sedentos, e tb da necessidade de preparar jovens para o futuro e sobre usar dados para tomada de decisão nas escolas para evitar vieses e precisão. O quanto que na educação infantil isso eh realmente efetivo?
    Muita coisas que os textos me fizeram refletir.
    Beijão
    Aninha

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    • Oi Aninha, que ótimas as suas reflexões! Elas dariam uma boa tarde de conversas. 🙂
      Vamos ver se consigo falar um pouco sobre estes pontos nos próximos posts ou em uma conversa pessoal nossa. Ainda estou no início da jornada, mas vou refletir contigo abaixo de forma bem superficial.

      Estas escolas têm bastante coisa em comum, mas possuem diferenças nas sutilezas de como abordam e entendem a infância e a educação. E acho que essas sutilezas fazem bastante diferença, por exemplo, no quanto as atividades são livres ou dirigidas, nas formas de disciplina, na relação educador e educando, e inclusive no que é considerado fator crítico de sucesso. Eu acho que todas as diferenças e semelhanças derivam de duas importantes reflexões: qual o sentido da educação e qual o sentido da vida para aquela escola? Sinto que estes dois pontos derivam quase todos os outros.

      A indisciplina é tratada de diferentes formas, a depender muito do contexto e do que se entende por indisciplina. Sinto que á um consenso em tentar tirar o medo do processo educativo, porque ele é apenas um condicionador. A relação de punição e recompensa como instrumento de controle de comportamento é algo que tem sido muito questionado e reinventado por estas escolas. Os alunos continuam sendo direcionados em seus comportamentos, mas vejo a palavra “castigo” ser substituída pela palavra “consequência”. Enfim, é um assunto profundo e vou escrever mais sobre isso depois. A ideia é que a criança possa aprender pela própria experiência e compreensão das consequências de seus atos e não pelo simples medo de agir de determinada forma.

      Sobre as diferenças, eu tive a sorte de encontrar um grupo MUITO diversos nas duas escolas que passei mais tempo, então o contexto da diferença é quase inerente às relações da escola. Se a criança está exposta a diferenças de forma harmônica desde muito cedo, sinto que os preconceitos vão se dissolvendo (não que não existam, eles sempre aparecem, mas em menor proporção). Era sobre isso que você tava falando quando disse “diferenças”?

      Sobre os milennials e a preparação dos jovens para os futuros, sim, acho que essa nova geração traz novos desafios para educação. O espaço escolar não acompanhou essa turma e os professores estão se desdobrando para acompanhar. A preparação para o futuro acho que esbarra de novo na reflexão do que é importante para o futuro para as famílias, para a comunidade que a escola está inserida. Tenho encontrado visões muito diferentes sobre isso. (ps: olha esse exemplo que interessante: https://www.fastcompany.com/40528502/this-school-focuses-on-teaching-students-happiness-not-math?utm_source=meio&utm_medium=email)

      E sobre usar dados para tomada de decisões, vixe. Esse assunto vai longe. Hehehe… A educação já está cheia de seus indicadores e dados de aprendizado, frequência, infraestrutura, mas acho que ainda estamos muito longe do ideal. Continuamos com o desafio de mensurar o imensurável, e o a educação está cheia de imensuráveis que são de suma importância. E você tem razão: sinto que na educação infantil, essa realidade não é muito efetiva e presente ainda. É um bom ponto de reflexão para mim também.

      Beijo grande querida! Obrigada pelas reflexões, já estão repercutindo por aqui.

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