O ritmo na Escola Waldorf de San Diego

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(foto tirada da página do Facebook deles)

Fui visitar a Escola Waldorf de San Diego em dia bastante gelado e chuvoso do inverno americano. Ao entrar no corredor principal da Escola Waldorf de San Diego, as cores das paredes, a intensidade da iluminação e os materiais ao meu redor aqueceram meu coração. Era como se eu estivesse adentrando o aconchego de um conto de fadas, ou da casa de campo de uma avó carinhosa.

 

Há algo bastante instigante na atmosfera de uma Escola Waldorf, que em poucos segundos te dão a sensação que há algo diferente nesta proposta educativa, mesmo que você nunca tenha lido ou conversado a respeito com ninguém.

Também no mesmo corredor minha atenção pousou em um cartaz com um pedido carinhoso de não entrar com celulares na escola. Respeitei e por isso também não registrei nenhuma foto da minha visita (recheei este post com imagens que encontrei na internet, pois no caso das Escolas Waldorf tenho a sensação que as imagens falam mais do que as palavras).

Fui recebida pela amorosa Julie, mãe de uma ex-aluna da escola, que se apaixonou tanto pela experiência escolar de sua filha que agora trabalha na escola e é uma grande entusiasta da pedagogia Waldorf. Julie passou uma agradável manhã comigo, me mostrando a escola, esclarecendo a proposta de Rudolf Steiner (o fundador da pedagogia Waldorf) e me presenteando com lindos materiais para eu aprofundar meus estudos. Para mim, encontrar o brilho nos olhos e o entusiasmo dos educadores e funcionários de uma escola é um indicador muito importante que algo de especial acontece no lugar. Julie me transmitiu muito amor.

Visitamos primeiro os espaços de ensino infantil – porque eu disse a ela ter interesse particular por essa faixa etária. A escola aceita criança apenas a partir dos seus 3/ 4 anos, porque antes disso acredita que é importante que elas estejam com seus pais e suas famílias, não estando emocionalmente preparadas ainda para a vida escolar.

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Sala de aula de ensino infantil de uma escola dos Estados Unidos

As salas de aula do ensino infantil são inacreditavelmente aconchegantes. Com diferentes materiais espalhados pela sala, a criança tem fácil acesso a atividades e brinquedos diversos, de artesanato a leitura, blocos de madeiras a bonecos. Todos os materiais (todos!) são de origem natural e orgânicos: os tecidos, as tintas, os brinquedos. Não há nada sintético ou de plástico, porque acredita-se que o desenvolvimento dos sentidos e o contato com os materiais naturais são essenciais nessa faixa etária (e na vida).

Há um predomínio de tons pasteis e cores claras, sem estímulos excessivos às crianças (que já são super estimuladas fora da escola) e as cores e decorações da sala de aula variam de acordo com a estação do ano. Como estávamos no inverno, havia um lindo desenho sobre o inverno na parede, carinhosamente preparado pela educadora daquela turma, bem como plantas de inverno decorando as mesas da sala. A iluminação também fica um pouco mais escura, para que as crianças possam efetivamente sentir e respeitar o ciclo da natureza que está sendo vivenciado.

Há um equilíbrio entre o brincar livre, no qual a criança explora os materiais da sala e suas vontades no seu próprio ritmo e as atividades propostas e direcionadas pelos educadores. Nesta faixa etária há muito trabalho manual, de artesanato, bem como bastante espaço de atividades ao ar livre e contato com a natureza. Sutilmente e de forma discreta a criança vai desenvolvendo as habilidades motoras e sensoriais que as ajudarão em fases posteriores da sua vida (exemplo, fazendo trico elas estão desenvolvendo os movimentos necessários à escrita). Julie também me explicou que a velocidade é diferente de uma escola tradicional: “aqui uma turma pode ficar durante semanas trabalhando na produção do mesmo material. Há uma preocupação em não incentivar a cultura do descartável, onde se trocam as coisas e se descartam as coisas muito rápido. Também é importante que a criança aprenda a valorizar o processo tanto quanto o resultado final. Esse um aprendizado para a vida, uma arte de viver a vida.”

O volume dentro da sala de aula é sempre bastante silencioso e harmônico e as educadoras são um ótimo exemplo para as crianças. Elas conduzem as atividades e intervém em comportamentos inadequados de forma silenciosa, carinhosa e cheia de criatividade. Exemplo: se é hora de arrumar a sala, vagarosamente uma educadora começa a cantarolar uma música sobre isso. As crianças também começam a cantar e se movimentar arrumando os brinquedos e a ordem se estabelece de forma harmônica, sem precisar de um pedido formal ou uma “bronca”.

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Imagem tirada do facebook deles.

Ao adentrarmos a segunda sala de ensino infantil da escola, ficou evidente para mim que há uma preocupação bastante peculiar em dar espaço e valorizar a imaginação das crianças na escola Waldorf. Julie pegou uma boneca para me mostrar com o mesmo cuidado que ela pegaria um bebe humano de verdade. “Aqui nós entramos na fantasia das crianças, nenhum adulto pega uma boneca como se fosse uma boneca.” Olhei intrigada para aquela situação e observei que a boneca estava com o rosto ‘em branco’. Não tinha boca, sobrancelha, nada. “Faz parte do brincar da criança, imaginar a boneca rindo, chorando, comendo. Nós tentamos influenciar o mínimo possível e abrir o espaço para o potencial imaginativo”, esclareceu Julie.

 

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Foto retirada do Facebook deles.

Saímos para o jardim, no fundo da escola, onde um grupo de crianças brincavam com suas galochas e capa de chuva. O clima não parece limitar a exploração dos espaços na escola. Julie me explicou que o ritmo é um aspecto muito importante na pedagogia Waldorf. A mudança de atividades e de ambientes é sempre contornada por um ritual. Por exemplo: quando as crianças voltam do jardim, há um ritual pré-estabelecido para isso, que contempla entrar juntos na escola, tirar as botas com calma, lavar as mãos um por um, beber água, passar creme de lavanda nos pés e receber uma massagem da educadora, sentar em círculo e aí sim aguardar o início da próxima atividade, que no caso seria contação de histórias.

 

Julie me explicou que os rituais são importante para trazer segurança para as crianças. Elas sabem o que vai acontecer e com isso vão sentindo que dominam o ambiente e a rotina e isso traz segurança para o “estar na escola”. Além disso, segundo Julie, muitas escolas acabam enfrentam desafios de disciplina apenas por não respeitar o ritmo da criança e não conduzir sua concentração e sua energia para as atividades.

“A escola pública aqui da frente demora 15 minutos só para convencer as crianças a sentar em círculo depois do recreio, é uma gritaria que só, os professores chamando a atenção de todos. Não me surpreende. A criança volta do recreio cheia de energia, depois de correr e pular e nós esperamos que ela tenha o controle de instantaneamente se sentar quieta e concentrada? É uma mudança muito brusca. É preciso ritualizar essa passagem e ir trazendo o foco da criança pouco a pouco para a próxima atividade. Aqui elas chegam agitadas também, mas o processo de tirar a bota, lavar a mão, beber água, passar creme, vai aos poucos preparando o ambiente e a concentração de forma mais orgânica e harmoniosa. Na rotina de uma escola Waldorf tudo tem uma razão de ser que foi cuidadosamente pensada para respeitar o ritmo e a harmonia.” – reprodução adaptada das palavras de Julie.

Seguimos nossa visita para os espaços do ensino fundamental – 1ª à 9ª série – e neste momento precisamos apertar um pouco o passo da visita, porque eu já havia consumido muito a Julie com minhas dúvidas sobre o ensino infantil. Há um ponto do ensino fundamental bastante diferente do que estamos acostumados: o mesmo educador acompanha a turma de crianças do primeiro ao nono ano. É um desafio a mais para o professor, que tem que atualizar sua formação anualmente para compreender o currículo de cada faixa etária, mas a escola acredita que é uma forma importante de criar efetivamente uma “família” na relação com educador e permitir o acompanhamento do desenvolvimento da criança de forma mais atenta e integral.

As salas de aula estão organizada de forma bastante semelhante a uma escola convencional – o que se desalinhou um pouco às minhas expectativas – no sentido em que as crianças estão sentadas em cadeiras enfileiradas e o professor assume um papel de liderança na frente da sala. As atividades e a forma de aprender porém me surpreendeu em cada sala que entrei. O aprendizado me parece ser sempre mais experiencial, onde a criança é convidada a efetivamente construir aquele saber com suas próprias mãos, e a arte parece ter um papel crucial para isso. Por exemplo: se vamos estudar anatomia, por que pegar uma imagem pronta de um livro, se podemos aprender bem mais sobre o nosso corpo desenhando efetivamente suas partes?

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Todos os trabalhos que vi expostos nas paredes da escola, fossem eles de anatomia, geografia, matemática, história, tinham uma qualidade artística impressionante. Parecia que eu estava em um museu de renomados desenhistas e poetas. As crianças têm aula de marcenaria, de circo, de teatro, de violino, de tecelagem, e eu não tenho dúvida que o domínio das artes e das atividades manuais têm um impacto significativo no desenvolvimento de suas habilidades cognitivas, de seu raciocínio, de sua sensibilidade e de sua autonomia para a vida.

Não tivemos tempo de visitar o ensino médio, mas Julie pode compartilhar um pouco comigo suas perspectivas e o que mais me marcou foi a preocupação da escola em envolver os jovens com as questões sociais de seu entorno. Conhecer outras realidades, se envolver em trabalhos de transformação social e ambiental. Julie compartilhou que nessa faixa etária, normalmente o ser humano se volta muito para dentro, na busca de sentido e com tendência de isolamento e sensação de incompreensão.A Escola Waldorf se preocupa em trazer o jovem “para fora”, para a expressão do seu universo emocional e psíquico interiores e para trabalhos carregados de sentido e de propósito.

Nos despedimos e Julie me presenteou com dois livros, um com depoimentos de ex-alunos Waldorf que são hoje adultos em diferentes áreas de atuação e um com uma apresentação mais detalhada da Pedagogia Waldorf. Recebi também um cartaz apresentando a matriz curricular da escola da primeira à nona série.

Tem como visitar uma escola dessa e não se encher de curiosidade por aprender e entender um pouco mais sobre essa proposta? Não senti que é a solução perfeita, mas definitivamente há algo de muito especial acontecendo em uma escola Waldorf. 🙂

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Festa da Lanterna na Escola Waldorf de San Diego (foto retirada do Facebook deles)

Ps: para quem não sabe, a Pedagogia Waldorf é uma proposta educativa desenvolvida há quase 100 anos pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner. Com mais de 2 mil escolas espalhadas pelo mundo, é considerado um dos maiores movimentos de educação alternativa/ independente do mundo. É um movimento que vem crescendo bastante no Brasil nos últimos 50 anos e atualmente tem mais de 120 escolas com esta proposta ou influência.

Ps2: para quem tiver interesse em conhecer mais sobre a visão de Rudolf Steiner sobre educação, eu fiz um post mais teórico apresentando de forma resumida sua proposta.

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