Pedagogia Waldorf: a educação na visão de Rudolf Steiner

Recentemente tive a oportunidade de fazer uma visita à Escola Waldorf de San Diego, e compartilhei um pouco da experiência aqui no blog. Como a Pedagogia Waldorf é um universo vasto e profundo, achei que valia a pena fazer um post um pouco mais teórico, com o singelo objetivo que apresentar um pouquinho da visão proposta por Rudolf Steiner, o fundador dessa proposta.

Vale ressaltar que este post ainda é bastante superficial e não tem a pretensão de exaurir o conteúdo desta pedagogia (até porque eu não tenho esse conhecimento!). Para vocês terem uma ideia, o educador Waldorf passa por uma formação de quatro anos (além da convencional faculdade de pedagogia). Mas vamos à minha humilde tentativa…

Rudolf Steiner (1861-1925) foi um estudioso austríaco, conhecido pelos seus profundos conhecimentos e reflexões em Filosofia, Educação, Artes e Esoterismo. Steiner foi fundador da Antroposofia[1], Ciência espiritual que tem por figura central uma imagem de ser humano específica e distinta da predominante na cultura ocidental contemporânea. A Antroposofia tem uma vasta e complexa literatura que apresenta o ser humano como um centro que habita diferentes corpos sutis e atividades anímicas que interagem entre e si e nascem e se desenvolvem em diferentes fases da vida humana. Desta ciência espiritual foram derivadas diferentes propostas para áreas práticas do conhecimento, como a Arquitetura orgânica, a Agricultura biodinâmica, a Farmácia antroposófica e a Arte da Euritmia. Dentro da Educação, a Antroposofia apresenta uma proposta pedagógica específica conhecida mundialmente como Pedagogia Waldorf.

Em discurso realizado em 1907 – e apresentado no livro “The Education of the Child” (1996), Steiner propõe uma abordagem para a Educação que contemple a criança dentro de uma visão holística de ser humano, enquanto ser dotado de diferentes corpos sutis que se tornam independentes e se desenvolvem em diferentes fases do desenvolvimento. A Educação deve ser guiada conforme o desenvolvimento de cada um destes corpos: o corpo físico, o corpo etérico ou vital, o corpo sensitivo ou astral e o corpo-eu.

Segundo o apresentado no livro “A Pedagogia Waldorf”(2013), cada ser humano já possui os quatro corpos sutis desde o nascimento – e é isso que o caracteriza enquanto seres humano – porém, eles assumem certa independência e se desenvolvem em momentos diferentes da vida. Da mesma forma que, durante a gestação até o momento do parto, o corpo físico do bebê ainda não é totalmente individualizado, estando ligado ao corpo físico da mãe, os demais corpos também vão ‘nascendo’ e assumindo independência em diferentes momentos da infância e da adolescência. De acordo com esta concepção, a Educação já deve começar na fase intrauterina, na qual a prioridade é permitir o desenvolvimento adequado e pleno de um corpo físico saudável.

A partir do nascimento, a Antroposofia apresenta o desenvolvimento humano de forma não-linear, mas sim em ciclos de sete anos (setênios), que são fases marcadas pelo nascimento e desenvolvimento dos diferentes corpos sutis. O parto marca a independência do corpo físico do recém-nascido, rompendo a ligação umbilical com o corpo físico de sua mãe; nos sete primeiros anos de vida, o corpo etérico ainda não está individualizado da mesma forma que o corpo físico, possuindo ainda ligação e influência de forças etéricas universais. O conceito de cada corpo sutil é vasto e não será apresentado aqui em detalhes, porém, de forma resumida, pode-se afirmar que o corpo etérico ou vital é o que diferencia o homem, os animais e plantas dos minerais, sendo o corpo o que caracteriza a pulsão vital; é o que mantém a vida e atua contra a morte.

Durante este primeiro setênio, o desenvolvimento e fortalecimento do corpo etérico, em consonância com o corpo físico, deve ser o foco da Educação de uma criança. Nessa fase, deve-se propiciar o crescimento forte e saudável do corpo físico e de todos os seus órgãos, bem como o desenvolvimento da vitalidade do corpo etérico. A alimentação, o sono, o ambiente, os movimentos e os estímulos são aspectos muito importantes para o desenvolvimento dessa fase. Segundo Steiner, este é o momento do desabrochar do “querer”, da “vontade”, e a criança deve ser estimulada a se movimentar livremente, em frequente contato com a natureza, e prezando pela força e resistência de sua vitalidade.

Nos primeiros sete anos, o desenvolvimento da criança é marcado principalmente pela imitação e pelo exemplo e portanto, os adultos que a circundam – sejam educadores ou familiares – devem criar em suas atitudes e no ambiente, os exemplos saudáveis para o seu desenvolvimento. A imitação é a forma pela qual a criança experimenta o mundo, logo, é uma atitude a ser respeitada e acolhida. As experiências dessa fase ficam profundamente marcadas no corpo etérico do indivíduo e a criança deve receber amor e afeto de forma abundante. O calor humano é o ingrediente essencial para este momento e deve-se construir a constante mensagem de que “o mundo é bom”.

Segundo Steiner, a troca da dentição no fim do primeiro setênio, junto com outros sinais, marca a independência total e a constituição completa do corpo etérico ou vital e o início do segundo setênio. Dos 7 aos 14 anos, a criança está na fase escolar da vida, com o seus corpos físico e etérico já independentes e o foco de desenvolvimento passa a ser o seu corpo sensitivo ou astral. Este é o corpo que diferencia o homem e os animais das plantas, responsável pelas “nossas sensações, reflexos, simpatias e antipatias, instintos e paixões” (Lanz, 2013, p. 21). Nessa fase, a Educação deve favorecer o desenvolvimento e reconhecimento de sentimentos e emoções. Deve-se desenvolver o senso da beleza e as linguagens artísticas.

Segundo a pedagogia Waldorf, no segundo setênio a criança manifesta suas capacidades de memória, antes mesmo do que suas capacidades intelectuais e é importante que isso seja respeitado. Pode ser prejudicial para o desenvolvimento infantil o despertar de sua capacidade de julgamento intelectual antes da hora, ou seja, antes de sua puberdade e independência de seu corpo astral. Entre os 7 e 14 anos é importante que a criança colete referências, materiais e conhecimentos para julgamento e comparação em sua vida posterior. Nessa fase, Steiner recomenda que as experiências educativas tenham sempre um paralelo com a espiritualidade e com as leis da natureza, por exemplo: ao se apresentar o nascimento de uma borboleta, aproveita-se para falar sobre a constante transformação de todas as coisas. Enquanto na primeira fase do desenvolvimento, imitação e exemplo eram palavras-chaves, no segundo setênio as palavras são autoridade e reverência. A autoridade não deve ser imposta, mas deve ser conquistada pela relação respeitosa e amorosa entre educador e educando. É quando a criança busca ideais humanos, sendo importante que o educador assuma essa posição de ser admirado com poder de autoridade. Esta é a fase do desenvolvimento do “sentir” e a mensagem constante a ser passada é de que “o mundo é belo”.

A chegada da puberdade, em torno dos 14 anos, caracterizada pelas transformações físicas e sexuais, marca o fim do segundo setênio e o nascimento completo do corpo astral. A partir de então, se inicia a terceira fase de desenvolvimento, dos 14 aos 21 anos, muitas vezes correspondendo ao ensino médio e início da vida universitária e que terá como foco o desenvolvimento do corpo-eu.

O terceiro setênio é o momento da vida no qual o ser humano se liberta de seus vínculos com o corpo astral e com o resto do organismo, a energia passa a ser centrada no desenvolvimento do “eu”, das faculdades mentais e morais, do senso crítico, do exercício da autonomia e da liberdade, da construção da responsabilidade moral. A relação de autoridade com o educador não funciona mais, já que nessa fase o jovem assume uma postura bastante crítica a tudo que lhe imposto; os educadores devem construir uma relação baseada na transparência, sendo exemplo inspirador aos jovens por sua capacidade crítica e por sua conduta moral. Nesse momento, a pedagogia Waldorf foca o desenvolvimento da atividade do “pensar” e a mensagem principal a ser percebida pelo educando é a de que “o mundo é verdadeiro”.

waldorf

A tabela acima resumo a proposta de Rudolf Steiner para cada fase do desenvolvimento humano durante a vida escolar.

Para saber mais sobre, estes são os dois livros que usei como referência:

E se tiver curiosidade de conhecer um pouco mais de como é o ritmo de uma escola Waldorf, neste post eu conto um pouco sobre a visita que fiz à Escola Waldorf de San Diego.

Observação: este texto foi retirado de um trabalho acadêmico que desenvolvi sobre Psicologia e Educação, por tanto se você for usar peço que coloque as devidas referências:

CAPITANIO, T. S. Pedagogia da Inteireza: uma concepção Transpessoal de Educação – A importância da integração dos elementos do desenvolvimento psíquico na educação de crianças e jovens. Monografia (Especialização em Psicologia Transpessoal) – Faculdade Vicentina, Alubrat, São Paulo, 2017, 82f.

 


[1] Antroposofia é o termo que denomina o método de conhecimento da natureza do ser humano e do universo desenvolvido pelo austríaco Rudolf Steiner no início do século XX e que tem aplicação em diversas áreas da vida humana.

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