Jogar aprendendo e aprender jogando

“Ao brincar, as crianças constroem suas relações espaciais, seus domínios de ações, as configurações (Gestalts) sensório-motoras que – à maneira de operações com relações e ações – vemos emergir como se elas, crianças, lhes dessem origem, operando na interioridade de suas mentes.”

(Humberto Maturana e Gerda Verden-Zoller, em “Amar e Brincar“, p. 157)  

Era uma calorosa tarde indiana quando cheguei à casa de Paula. Junto de outras três mulheres fui à sua residência para fazer algo que nós adultos frequentemente nos esquecemos: jogar.

Paula é uma das moradoras de Auroville e faz parte de um projeto chamado KALVI (que significa ‘educação’ em Tamil, a lingua falada nessa região da Índia). Criado por um grupo de educadores engajados com Educação Integral em Auroville, o projeto tem como foco a pesquisa e o desenvolvimento de jogos didáticos e educativos, para expansão de seis faculdades mentais: pensar, ver, ouvir, falar, harmonia da energia vital e harmonia do corpo.

Para quem fala inglês, no vídeo abaixo Paula apresenta o projeto em suas próprias palavras:

Eu havia visto um dos jogos – com lindo padrões geométricos – por aqui e entrei em contato com Paula, pedindo para saber mais sobre o projeto e para observar alguma sessão com as crianças jogando. Típico comportamento adulto não é mesmo? Quero saber mais sobre uma coisa e penso logo em conversar ou assistir, mas não passa pela minha cabeça a possibilidade de jogar! Porém Paula, que sabe muito bem o quê e o porquê faz, me convidou para uma sessão de jogos, para testarmos alguns de seus novos materiais. Para ela, não existe a possibilidade de observar sem jogar. 🙂

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Os jogos do KALVI são simples e intuitivos, mas ao mesmo tempo bastante potentes para o desabrochar da atenção, concentração, memória, raciocínio lógico, cooperação, auto-estima e muitas outras coisas. Pude conhecer um lindo jogo para a construção de padrões geométrico tendo com base formatos e peças pré-estabelecidos. Este mesmo jogo pode ser incrementado com o uso de dois pequenos espelhos dispostos em um ângulo de 90 graus, os quais reproduzem diferentes padrões com as peças colocadas entre eles. E também testamos um novo jogo com flores de diferentes cores, tamanhos, centros e número de pétalas, que nos desafiou a atenção e a memória. Veja no vídeo abaixo alguns momentos do nosso jogar. 🙂

Não é a primeira vez que me sinto atraída pelo universo dos jogos durante essa jornada pelas escolas. A cada nova experiência tenho cada vez mais certeza de que jogar é coisa séria. O jogo parece colocar as crianças (e também os adultos) em um estado mental de muita abertura para o aprendizado e é impressionante o número de coisas que estão sendo trabalhadas de forma transdisciplinar enquanto se joga.

Eu tenho carregado essa lição em todos os encontros “educativos”: o que pode ser transformado em um jogo? Como podemos brincar com este conceito? O jogo nos coloca presentes no aqui e agora, nos coloca sensíveis aos outros e a nós mesmos. Nas palavras de Humberto Maturana e Gerda Verden-Zoller:

“Qualquer atividade humana que seja desfrutada em sua realização – na qual a atenção de quem a vive não vai além dela – é uma brincadeira. Deixamos de brincar quando perdemos a inocência, e a perdemos quando deixamos de atentar para o que fazemos e voltamos nossa atenção para as conseqüências de nossas ações – ou para algo mais além delas -, enquanto ainda estamos no processo de realizá-las. (…) Perdemos nossa consciência social individual à medida que deixamos de brincar. E assim transformamos nossas vidas numa contínua justificação de nossas ações em função de suas conseqüências, num processo que nos torna insensíveis em relação a nós mesmos e aos demais.” (pág. 252 do livro “Amar e Brincar“)

Mais informações sobre o projeto KALVI podem ser encontradas nessa página do Facebook ou neste canal do YouTube. Dois de seus jogos também estão a venda aqui e aqui

E para fechar, deixo a linda e profunda provocação do nosso querido Edgar Gouveia sobre o poder do brincar para transformação das relações, dos espaços e das perspectivas.

Sigamos jogando!

 

Um comentário

  1. Tati, sensacional esse post!!! Jogos e brincadeiras são super substância no movimento escoteiro para transformar o vivenciar das experiências dos jovens. Me senti muito representada na sua fala de que o jogo nos coloca sensíveis ao outro e a nós mesmo e como isso se reflete no aprimorar constantemente a empatia. Saudades amiga querida, beijos brazucas pra você!

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