A pedagogia do círculo

As crianças aqui no Auroville Kindergarten sentam em círculo muitas vezes por dia.

Elas sentam em roda com os seus amigos de turma para começar o dia. Elas deitam em roda para relaxar o corpo antes de ir pro intervalo. Elas sentam em uma grande roda com todas as crianças da escola para encerrar o intervalo. Elas sentam em roda para as atividades de francês, sânscrito e tamil.

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Imagem retirada do relatório anual do SAIIER

Em roda elas conversam, elas cantam, elas contam histórias, elas dançam, elas jogam, elas aprendem a fechar os olhos, a controlar o corpo. O círculo é um momento pedagógico muito poderoso.

As comunidades indígenas, as civilizações antigas e as muitas tradições nos ensinam sobre o valor do momento em círculo para as relações humanas e para a vida, mas é na escola que eu estou conseguindo observar a profundidade deste momento.

O círculo é uma das únicas configurações de um grupo de pessoas que nos permite olhar para cada indivíduo ao mesmo tempo, que nos permite escutar a todos sem ter que virar o corpo e o pescoço, que nos permite contar em quantos somos e sentir a presença de cada um. Eu poderia ficar parágrafos e parágrafos divagando e filosofando sobre a inteireza do sentar em círculo, mas vou tentar ser mais objetiva nas possibilidades pedagógicas do círculo que tenho observado com as crianças aqui da escola.

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Imagem ficou no centro do círculo por semanas. Enquanto eram trabalhadas as cores e as virtudes humanas com as crianças, a imagem era pintada aos poucos.

Primeiro, a pedagogia do círculo começa antes de sua preparação. A cada dia um diferente integrante da turma é elencado como o ajudante do dia e ele é responsável por montar o círculo. Montar o círculo envolve pegar as almofadas, aprender a contar quantas pessoas tem e quantas almofadas precisa, aprender a desenhar o círculo de uma forma redonda e que mantenha o centro no centro. Envolve também a decoração do círculo que sempre tem algo em seu centro, flores, mandala, cores. 🙂

Depois, sentar em círculo envolve uma grande prática de controle corporal, algo muito valioso para esta faixa etária. As crianças são convidadas e estimuladas a aprenderem a observar e conversar com seu corpo: “você percebeu que seus pernas estão dançando?”, “você percebeu que seus dedos estão cutucando o amigo?”, “você gostaria de pedir para sua coluna ficar forte e ereta?”, “você pode pedir para seus olhos acompanharem suas mãos nessa atividade?”. A importância de uma boa postura para nossa saúde e nossas emoções mereceria um outro post, mas é muito bonito ver as crianças literalmente conversando com seu corpo e aprendendo a estar mais conscientes nos movimentos. O desafio aqui para os educadores é não cair no tentador lugar de autoridade rígida que gera os efeitos completamente opostos na consciência corporal da criança.

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Imagem retirada do site do ATB.

Um outro aspecto central do momento do círculo é a possibilidade da auto-expressão. Todas as crianças são convidadas a falar, algumas têm mais facilidade, outras adoram, outras têm vergonha, mas todas têm o seu espaço e encontram um momento ausente de julgamento para se expressar a sua maneira e no seu tempo. Aqui no Kindergarten as educadoras frequentemente perguntam quem quer contar uma história ou cantar uma música, e elas vão uma a uma compartilhando um pouco de si com a turma. Inventam históricas, compõem canções, inventam movimentos de dança, é lindo de ver.

Em círculo, aprender a se auto-expressar e aprender a ouvir o outro caminham lado a lado. Enquanto um fala, canta ou conta uma história, os outros aprendem a escutar em silêncio, a esperar para falar, a respeitar as diferenças. Muitas vezes as educadoras ou as próprias crianças trazem algo para mostrar no círculo: uma flor, uma pedra, uma boneca. O objeto vai passando e sendo sentido de mão em mão, e este também é um exercício de paciência, de observar e respeitar o tempo de cada um.

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Foto tirada por mim em uma exposição de flores que fomos com as crianças.

E então chegamos no que eu acho que é o aspecto central do sentar em círculo: aprender a se relacionar. O relacionamento humano é uma condição de nossa vida e quiçá nosso principal desafio. Quantas barreiras não construímos em nossas relações individuais e consequentemente coletivas? Quantas pessoas não conseguimos olhar nos olhos ao conversar? Em quantas situações não nos sentimos convidados a falar ou não nos sentimos escutados? Quantas diferenças nos causam desconforto? Quantas guerras não aconteceram tendo estes desconfortos como raízes? Nós somos gerações de adultos que não aprendemos a sentar em círculo (sim, estou generalizando para facilitar a escrita) e estamos vivendo as consequências disso.

Então, pelo amor, sentemos em círculo com as crianças sempre que possível! Por mais desconfortável que isso seja para nós mesmos.

Sigamos nos olhando. ❤

Maker:S,Date:2017-11-1,Ver:6,Lens:Kan03,Act:Lar02,E-Y
Mandala que fiz no centro do círculo em um dia comum.
Screen Shot 2018-03-31 at 10.19.24
Mandala feita pelas crianças no dia seguinte. ❤

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