O que eu aprendi na Green School?

Como já compartilhei por aqui, no final de maio eu participei do curso “Green Educators” na Green School em Bali. Infelizmente não consegui escrever este post antes – e tanta coisa já aconteceu entre o fim do curso e o dia de hoje – que agora não me sinto tão conectada com as sensações e emoções que os intensos dias na escola de bambu me despertaram.

De qualquer forma, não queria deixar de compartilhar alguns materiais e aprendizados que tive a sorte de conhecer por lá. Preparem-se porque o post vai ser longo e cheio de fotos :). Se quiser ir direto para os links e referências, eles estarão mais no final do texto.

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Grupo de educadores em uma das rodas de partilha durante o curso.

Éramos um grupo grande de mais de 40 educadores ou ‘amantes da educação’ de nacionalidades diversas, como indiana, brasileira, japonesa, inglesa, indonésia, singapurense, alemã, australiana, dentre outras. Durante quatro dias passamos os dias e as noites juntos, experimentando um pouco da rotina ‘verde’ da Green School e refletindo sobre os novos caminhos possíveis para uma educação mais sustentável (nos mais amplos sentidos dessa palavra).

O encontro teve uma agenda bastante diversa e passamos – ainda que de forma superficial – por muitos tópicos, como currículo, sustentabilidade, espaço escolar e mindfulness. Abaixo eu selecionei alguns tópicos que mais me marcaram ou algumas referências que me parecem bastante úteis de serem compartilhadas.

1) Espaço Escolar

Como já compartilhei no outro post, o espaço escolar é de fato um dos aspectos mais marcantes da Green School. Não só por suas maravilhosas estruturas de bambu, mas pelas constantes experiências de aprendizado gerados pelo espaço.

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Roda de conversa no Student Village

O fato de não ter paredes, faz com que os sons e movimentos se misturem em uma linda orquestra durante o dia-a-dia na escola e traz um ambiente de confiança muito importante na relação com as crianças e jovens. Como manter a atenção e o engajamento do grupo com tanto estímulo de distração? É preciso um bocado de confiança, de autonomia, de empolgação e de amor pelo que se está fazendo.

Para além do espaço físico maravilhoso e sem paredes, a equipe da Green School dedica bastante energia para que seu campus seja a materialização de sua filosofia. Partindo do pressuposto que devemos iniciar a mudança em nós mesmos e nos espaços de influência ao nosso redor, a Green School dá um belo exemplo. O espaço, sua integração com a natureza, a qualidade de tudo que está ali disposto, o uso dos recursos naturais, a alimentação, os banheiros, a geração de energia, todos os detalhes do campus respondem à visão de mundo proposta pela escola. Não tenho dúvidas que a experiência que as crianças e jovens têm no dia-a-dia ali na escola permite uma compreensão bastante ampliada das possíveis formas de se viver, e certamente influenciará muito como cada um deles cuidará dos espaços ao seu redor durante a vida.

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Jantar em cima da ponte de bambu, com vista para o rio.

Não tem como pisar naquele território sem viver uma experiência de aprendizagem, sem ser provocado a repensar algo, sem ser instigado a descobrir algo novo. E isso para mim marcou muito a concepção de espaço educativo – não importa os materiais, o clima, a localização, mas ali entendi o espaço educativo como aquele que provoca um processo de expansão e compreensão silencioso e constante, pelo simples estar no local.

2) Valores e Habilidades

A Green School é cheia de templates, frameworks e modelos para organizar sua filosofia e proposta prática. Uma linguagem bastante usada no mundo das empresas, mas não tão familiar para muitos na educação.

Eu particularmente ando com um pouco de aversão a exagerados ‘modelos’, talvez pelos meus intensos anos profissionais trabalhando com essa linguagem ou talvez por perceber que algumas vezes eles se distanciam muito do que se dá na vivência prática. Porém, na Green School eu reconheci a importância deles para colocar todo mundo na mesma página e para trazer clareza para propostas ousadas e inovadoras. Afinal de contas, em uma escola com 400 alunos e mais de 200 profissionais – como é o caso deles – é extremamente importante colocar energia para que as compreensões de todos se aproximem.

Dois destes materiais que eu acho que vale a pena compartilhar são sobre valores e sobre habilidades. Em relação aos valores, eles usam um anagrama para ajudá-los a memorizar que é I-RESPECT, representando os valores de integridade, responsabilidade, empatia, sustentabilidade, paz, equidade, comunidade e confiança. Estes valores estão colados pela escola inteira e todos sabem muito bem do que se trata. Em algumas salas também é possível ver alguns trabalhos e materiais artísticos dos alunos refletindo sobre o significado de cada um destes valores.

Em relação às habilidades, a Green School foca em 9 habilidades. Como vocês podem ver na foto que tirei abaixo, elas também estão coladas repetidamente pela escola e é um linguajar comum a todos por lá. As habilidades são: pensar criativamente, ativar, adaptar, pensar criticamente, estar consciente, colaborar, pensar sistemicamente (eu amei essa!), comunicar, resolver problemas. 

Os educadores, ao desenvolverem uma proposta pedagógica de projeto, definem quais habilidades querem fortalecer com determinada proposta e comunicam isso de forma transparente aos alunos.

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3) Currículo

O currículo da Green School valeria um post a parte e não vou conseguir entrar em detalhes aqui, mas eu recomendo muito consultá-lo como inspiração caso você tenha algum desafio curricular.

Nessa página do site deles, você pode escolher uma “School Neighborhood” específica (que é como eles chamam as fases de ensino) e fazer o download da proposta curricular.

Em todas as fases, o currículo é baseado em um modelo que eles chamam de “Three Frames of Learning” (Três Estruturas de Aprendizado), contemplando os seguintes três aspectos:

  1. The Integral Frame (Estrutura Integral): se utiliza de ensinos temáticos e foca em engajar e satisfazer o indivíduo de forma integral, inteira.
  2. The Instructional Frame (Estrutura Instrutiva): foca nas competências específicas essenciais, que requerem repetição para a conquista da proficiência, como alfabetização, matemática, línguas. Nesse aspecto, a Green School destaca a importância da atenção aos detalhes de forma individualizada.
  3. The Experiential Frame (Estrutura Experiencial): leva os alunos a experiências da vida real em locais de trabalho onde os adultos operam comercialmente e através de oportunidades práticas que surgem em qualquer lugar da comunidade. Esse aspecto oferece oportunidades para desenvolver habilidades tecnológicas e alimenta a ‘Estrutura Instrutiva”, fornecendo problemas de “vida real” para os alunos resolverem.

A ideia é que em todas as idades, os alunos vivenciem uma distribuição equilibrada de seu tempo na escola entre estes três aspectos do currículo, experienciando o que a Green School chama de 3FD (Three Frames Day – Dia de Três Estruturas). Se tiver curiosidade de ler mais sobre o Three Frames of Learning dê uma olhada nesse arquivo em PDF.

Outra coisa que eu gostei bastante também dá visão deles é que eles não olham para o currículo como algo estático, mas como um processo sem fim, que deve ser sempre atualizado. A ideia é que assim que você termina o desenho do currículo você automaticamente inicia novamente seu processo de revisão e atualização, não tem “produto final”.

Com este resumido contexto de como o currículo é organizado, não preciso nem falar que a interdisciplinariedade é um ponto forte e aplicado com seriedade na Green School né? Com excessão das línguas e da matemática, quase todas as outras experiências de aprendizado na escola acontecem de forma extremamente interdisciplinar, baseada em projetos reais e experienciais, com uma boa dose de autonomia e visão sistêmica.

E falando em visão sistêmica, este foi um ponto que me marcou tanto na visita à Green School, que acho que vale esmiuçar um pouco mais.

4) Visão Sistêmica – Modelo Compasso

O pensamento sistêmico é um modelo mental que tem permeado várias disciplinas do pensamento, nas áreas de saúde, humanas, exatas, e por aí vai. Há diferentes formas de olhar para esse assunto, mas de forma bastante resumida, eu gosto dessa definição de Peter Senge:

“O pensamento sistêmico é uma disciplina para ver totalidades. É uma estrutura para ver interrelações, em vez de coisas, para ver ‘padrões de mudança’ em vez de ‘cenários’ estáticos.”

Com o pensamento sistêmico, há a compreensão de que vivemos em sistemas complexos de relações, seres, causalidades e efeitos, onde o pensamento linear e fragmentado não colabora para a compreensão da totalidade e para o desenvolvimento sustentável. A Green School considera muito importante que seus alunos aprendam, desde cedo, a observar o mundo e as questões de forma sistêmica, por acreditar que essa é uma compreensão essencial para a sustentabilidade e para o emergir de novas abordagens para nossos antigos desafios.

Parece uma coisa bastante complexa para levar para uma escola e para crianças, não é mesmo? Uma das ferramentas que tem ajudado a Green School a simplificar essa linguagem é chamada de Compass Model (Modelo Compasso), desenvolvida por uma ONG norte-americana chamada Compass Education.

Compass Model – Compass Education

Essa ONG tem muitas ferramentas e materiais para a abordagem da sustentabilidade em escolas e o modelo compasso, bastante usado na Green School, propõe a abordagem de todo e qualquer tema e projeto do currículo escolar, contemplando os quatro aspectos do compasso abaixo: natureza, economia, sociedade e bem-estar. É um modelo parecido ao famoso tripé da sustentabilidade, porém com importante inclusão do bem-estar individual como ponto importante para a sustentabilidade.

Durante o curso, alguns professores da Green School nos deram exemplos concretos de como eles incluem a reflexão sobre todos estes aspectos em todos os projetos da escola, seja ele sobre pássaros, lixo, literatura, etc. Para mim não importa tanto a ferramenta usada, mas o compromisso de trazer o pensamento sistêmico para o aprendizado escolar me pareceu algo potente e bastante necessário.

5) Tecnologia

Uma escola de bambu, no meio do mato, em Bali, com banheiros secos e energia limpa… a soma destas características pode criar um estereótipo nas mentes mais dualistas de um espaço averso às novas tecnologias, desatualizado das novas ferramentas de comunicação, ensino e gestão. Pois basta um dia na Green School para quebrar essa contradição.

Nos espaços de bambu é muito comum encontrar os alunos trabalhando, cada um em seu laptop, em um documento compartilhado pelo Google Drive. Ou um grupo de alunos assistindo a um documentário em uma grande tela pendurada na estrutura de bambu. Ou quem sabe até alunos registrando o espaço escolar para um projeto de Realidade Virtual. Ou um grupo de alunos fazendo uma votação por meio de seus celulares.

Na Green School sustentabilidade e tecnologia andam juntinhas e se os alunos estão se preparando para o mundo do futuro do ponto de vista ambiental, se preparam também do ponto de vista tecnológico.

A escola usa o Google For Education como plataforma para toda a escola (professores, gestão, alunos). É bem legal, se quiserem saber mais dêem uma olhada nesse site. Falando em Google, o clima de inovação, mudança, criatividade e entusiasmo da escola me lembrou muito o ambiente de trabalho que pude vivenciar no Google. Curioso né?

6) Mindfullness

Quem me conhece sabe que esse é um dos assuntos que mais me interessam na educação e eu fiquei muito feliz ele sendo aplicado e aparentemente ganhando mais espaço na Green School.

Para quem não conhece, vale uma pequena contextualização do que é Mindfulness, termo conhecido no Brasil também como ‘Atenção Plena’. Segundo a UCLA (Universidade da Califórnia), Mindfulness é o processo de, a cada momento, observar de forma ativa e aberta, suas próprias experiências físicas, mentais e emocionais. Com centros de pesquisas sobre o tema nas principais universidades do mundo, como Harvard, UCLA, Oxford, Columbia, as práticas de atenção plena são comprovadas cientificamente como meios de redução de stress, melhora da atenção, fortalecimento do sistema imunológico, redução da atividade emocional e promoção da sensação de saúde e bem-estar.

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Foto de cartaz na escola

É um campo de pesquisa da saúde mental, que apesar de ter inspirações em práticas milenares de meditação e atenção plena (como o budismo), ganhou espaço na academia e nas pesquisas científicas nos últimos 35 anos, influenciando principalmente três campos de atuação: o de cuidados com saúde, o da saúde mental e o da educação. 

Mas como eles aplicam isso no currículo da Green School? Alguns profissionais da escola fizeram a formação de Mindfulness para Educadores no Mindful Schools. Com base nesse arcabouço prático e teórico, todos os educadores da escola foram capacitados para aplicar alguns minutos e atividades de Mindfulness com suas próprias turmas, diariamente.

Além disso, diariamente às 14h um grande sino é tocado na escola (Mindfulness Gong), e todas as pessoas que estão no campus, sejam elas educadores, alunos, visitantes, param o que estiverem fazendo para um momento de silêncio. A ideia é que aos pontos a atenção plena vá fazendo parte da rotina escolar e da vida de todos de forma orgânica.

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Uma das sessões de Mindfulness que tínhamos todas as manhãs.

7) Experiência prática 

Como já falei, um dos destaques do currículo da Green School é o tempo dedicado ao aprendizado experiencial e as formas inovadoras e criativas com as quais isso acontece. Abaixo coloquei alguns links e referências de projetos da escola e dos alunos, que podem servir de referência e inspiração para educadores:

  • Leap Academy: um programa de aprendizagem imersiva e mão-na-massa para os jovens do ensino médio. No programa, durante 6 semanas um grupo de aluno têm a chance de mergulhar em um projeto específico de seu interesse. No site vocês conseguem ver os detalhes dos projetos que os jovens participaram. Eu achei esse projeto dos jovens, de passar uma semana sobrevivendo em uma ilha deserta bastante interessante. 🙂
  • Green School Biobus: um projeto de ônibus movido por biocombustível desenvolvido pelos alunos da escola. Vale muito dar uma olhada.
  • Jalan Jalan: todas as quartas de manhã os alunos do ensino fundamental 2 e do ensino médio saem de suas rotinas tradicionais e se misturam em grupos misturados, para trabalhar em projeto prático de seu interesse. Com diversos assuntos, em serviços, empreendedorismo, natureza, os alunos podem se misturar com outros educadores e colegas, sair de suas zonas de conforto e trabalhar em algo totalmente diferente.

Bom, há muitos outros pontos que pensei em compartilhar aqui, como a relação da escola com a comunidade local, o envolvimento dos país, sobre os professores, a gestão, mas este post já está ficando grande demais e meus dedos e os seus olhos merecem um descanso.

Então deixo vocês com uma imagem que é um belo exemplo do que é aprender na prática :p. Eu cheia de lama depois de uma bonita cerimônia indonésia que envolve se jogar na lama, lutar e ser abençoado com flores.

Seguimos nos sujando bastante para aprender cada vez mais!

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