Comunicação não-violenta (CNV) na Educação

Enquanto rascunhava este post, estava eu a pensar se existe educação sem comunicação. Será que uma coisa não é inerente a outra? A educação existe apenas a partir das relações, consigo, com o outro e com o mundo. E a comunicação é o aspecto central da capacidade humana de se relacionar. Como já dizia o grande Paulo Freire, “ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.”

Portanto, minha humilde opinião é que não. Não existe educação sem comunicação. Logo, a forma como nos comunicamos impacta diretamente na forma como nos educamos. (pausa no pensamento: uau! será que agora vou encontrar algum sentido em ter estudado tanto tempo comunicação e agora ter enveredado para os mundos da educação?) Ou seja, se sentimos ser urgente repensar as formas do educar, faz-se urgente também repensar as formas do comunicar.

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Cartões de “Necessidades Humanas” que fiz para me ajudar a identificar as minhas. 🙂

Há quatro meses atrás eu tive a chance de participar de um workshop de Comunicação não-violenta (CNV) em Auroville, facilitado pela L’aura Joy (uma pessoa bem especial). Eu já tinha lido muito sobre o assunto, já tinha lido o livro do Marshall Rosenberg, mas ainda não tinha me apaixonado pela CNV como aconteceu naquele fim de semana. Talvez porque agora eu olhava com olhar de educadora e via naquela ferramenta uma prática poderosíssima para as relações com as crianças.

A CNV já está bem conhecida pelos quatro cantos do mundo e basta digitar no Google para encontrar muitos vídeos, livros, materiais, encontros e workshops. Por isso, vou dar um contexto bem superficial do que ela é aqui, para facilitar a leitura de quem ainda não cruzou com este conceito. A Comunicação não-violenta é uma proposta de comunicação estudada pelo psicólogo americano Marshall Rosenberg, que favorece relações de parceria e cooperação, baseadas em uma comunicação eficaz e empática. Segundo Marshall: “uma abordagem específica de comunicação – falar e ouvir – que nos leva a nos entregarmos de coração, ligando-nos a nós mesmos e aos outros de maneira tal que permite que nossa compaixão natural floresça.”

O processo de CNV proposto por Marshall passa por quatro passos: observar o que está acontecendo sem julgamentos, identificar quais são os seus sentimentos em relação ao fato observado, compreender quais são as suas necessidades conectadas aos sentimentos identificados, expressar o que deseja na forma de um pedido claro e concreto. A imagem abaixo faz um ótimo resumo destes quatro passos.

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Fonte: https://cfmrc.com.br/artigo/a-comunicacao-nao-violenta-e-a-cultura-da-paz

Durante o workshop, meu primeiro ‘clarão’ (como diz Tião Rocha, ‘clarão’ é a forma brasileira de dizer insight) foi: somos muito mais violentos quando nos comunicamos do que temos consciência. O segundo foi: somos muito mais violentos com as crianças do que imaginamos. O terceiro foi: a forma violenta como nos comunicamos com as crianças inconscientemente influenciará a compreensão que ela desenvolverá de si, dos outros e do mundo. O quarto foi: a CNV deveria fazer parte de toda a formação de educadores! (sim, eu sei que não é a única forma de pensar sobre o assunto, mas lembrem-se que durante o workshop eu estava bem apaixonada! rs). 

Em seu livro, Marshall explora quais são as formas de comunicação que bloqueiam nosso estado compassivo natural. São hábitos e padrões que temos ao nos comunicarmos, que nos privam de entrar em conexão com o outro e bloqueiam nossa empatia natural. Marshall os chama de “comunicação alienante da vida”. Dentre estes fatores, alguns me chamam especial atenção dentro do contexto educativo e da relação entre educadores e crianças:

1) Julgamentos moralizadores: a comunicação centrada em definir “quem É o que”, como se um estado do outro fosse responsável por determinada situação. É uma comunicação carregada de elementos de culpa, rotulação, crítica, diagnóstico. Exemplos: ‘ele é preguiçoso’, ‘isso é inaceitável’, ‘ela é egoísta’. Por centrar no erro e no defeito, essa forma de comunicação ignora os sentimentos e necessidades por trás dos atos, inviabiliza a conexão e estimula a violência.

Em minha experiência, na maioria das vezes encontrei ambientes escolares e educativos carregados de julgamentos moralizadores. Reflexões: O que acontece quando uma criança vive ouvindo estes julgamentos na escola ou em casa? Quanto espaço encontrará para investigar seus sentimentos e necessidades? Como seu olhar empático para os sentimentos e necessidades dos outros se desenvolverá? Qual a compreensão que terá sobre a diferença entre ‘ser’ e ‘estar’?

Qual a diferença das amplas mensagens transmitidas por estas três colocações: “Deixe de ser preguiçoso e faça o exercício.” ou “Estou observando que você está parado, o que você está sentindo? O que precisa para continuar o exercício?” ou “Estou observando que você está parado, você está se sentindo desmotivado? Precisa de mais clareza sobre porque estamos fazendo este exercício?”.

2) Comparações:  também uma forma de julgamento, Marshall comenta como o pensamento e as afirmações comparativas tem uma grande influência sobre nosso bem-estar, felicidade, auto-estima e tudo-o-mais. Infelizmente também uma prática muito comum nas escolas e nas famílias.

Reflexões: O que acontece com uma criança que vive ouvindo comparações? O que acontece com uma criança que fortalece referenciais externos para o seu desenvolvimento e para sua aceitação perante os outros?

3) Negação de responsabilidade: essa é minha lição favorita da CNV. Segundo Marshall, as comunicações alienantes da vida atrapalham a nossa consciência de que somos responsáveis por nossos próprios sentimentos, pensamentos e atos. Nós e ninguém mais. Frases que começam com “eu tive que…”, “eu tenho que…” mascaram nosso livre arbítrio e as necessidades por trás de nossas ações. E frases como “você me fez sentir…. “, ou “ele me machucou…” também estimulam a negação da auto-responsabilidade.

Esse aspecto é talvez mais sutil do que os dois que trouxe acima, porém acho que é o mais poderoso deles. Talvez pela própria sutileza. Concordo com Marshall quando ele afirma que “ficamos perigosos quando não temos consciência de nossa responsabilidade por nossos comportamentos, pensamentos e sentimentos.” A negação de nossas responsabilidades impacta muito na forma como nos relacionamentos com os outros, com a cidade, com o consumo, com a política, com a saúde, com o tempo e com a vida. E transformar a linguagem, nesse sentido, muda tudo.

Qual a diferença de dizer “tive que cancelar o médico por causa do trabalho” e “optei por cancelar o médico para priorizar o trabalho”? Qual a forma mais fácil? Em qual você se sente mais responsável?

Qual a diferença de justificar que “tive que aplicar esta prova porque é a política da escola” e “decidi aplicar a prova para seguir a política da escola e não colocar meu emprego em risco”? Em qual você se sente mais responsável? Qual a consequência de se sentir responsável?

Qual a diferença de dizer “crianças, as risadas altas estão me deixando nervosa” e “crianças, eu estou me sentindo nervosa nesse ambiente barulhento porque preciso de silêncio e concentração para falar“?

Pode parecer besteira, mas uma mudança sutil na forma de falar vai apresentando às crianças uma postura de auto-responsabilidade que influenciará às suas próprias formas de expressão e de se relacionar com o mundo. Reflexões: o que acontecerá com uma criança que passa a acreditar que os outros são responsáveis por seus sentimentos? E com uma criança que passa a entender que ela é responsável pelo sentimento e atitudes dos outros?

Ser humano requer uma atenção responsável às sutilezas da comunicação. A comunicação é a base de nossas relações. E as relações são a base de nossas vida. Ser educador então, requer um estado na arte na comunicação.

Bom, a ideia aqui não é exaurir o conceito de CNV, mas apenas compartilhar um pouco da paixão que senti quando conheci o trabalho de Marshall um pouco melhor e do ‘clarão’ que tive sobre a importância desse olhar na educação.

Para quem tiver mais curiosidade, ele também escreveu livros ótimos específicos para pais e educadores, com muitos exemplos práticos e atividades (vejam aqui). E várias escolas pelo mundo têm sido desenvolvidas baseadas nos princípios da CNV (se alguém tiver interesse me escreve, que eu tenho uma listinha).

Para terminar deixo abaixo um vídeo bem legal do Dominique Barter falando sobre CNV e Educação. O Dominique é consultor internacional em Comunicação Não Violenta em Práticas Restaurativas, trabalhou bastante tempo com o Marshall e vive dando palestras e workshops de CNV pelo Brasil.

Sigamos nos comunicando – ouvindo e falando – com o coração. ❤

 

2 comentários

  1. Que sigamos assim, mesmo! ❤
    E isto: “ficamos perigosos quando não temos consciência de nossa responsabilidade por nossos comportamentos, pensamentos e sentimentos.”, faz tanto sentido!
    Acima de tudo, ficamos mais perigosos perante nós mesmos. Abdicar da nossa responsabilidade é abdicar da nossa liberdade.

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