Claudio Naranjo | Uma educação do indivíduo inteiro para um mundo unificado

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Saiba mais sobre o trabalho de Claudio Naranjo aqui.

Claudio Naranjo é uma figura cativante, de fala doce e mensagens profundas. Eu gosto dele porque ele transcende os possíveis rótulos do mundo atual, onde ou você é ‘acadêmico intelectual’, ou você é um ‘místico natureba’. Naranjo não cabe em nenhum rótulo, ou cabe em todos. Possui um currículo gabaritado e inquestionável para os mais ortodoxos, carrega vivências com mestres espirituais para os místicos, transitou pela medicina, pela música, pela psicologia, pela educação, pela espiritualidade. Eu me inspiro muito com pessoas que rompem as barreiras dos “OU”s e se constroem cheia de diversos “E”s.

Professor e pesquisador chileno, de diversos âmbitos do conhecimento e do desenvolvimento humano, com formação diversa em Medicina, Psiquiatria e Música. Passou por diversas universidades relevantes, como Harvard e Stanford, especializou-se em Gestalt e integrou a equipe original do Instituto Esalen na década de 1960. Foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz em 2015. Foi criador do programa SAT (Seekers After Truth) de formação de terapeutas, que também apresentou contribuição importante para a formação de educadores.

Ele é autor de um dos livros mais impactantes que eu li nesse meu mergulho no universo da educação: “Mudar a Educação para Mudar o Mundo: o desafio do Milênio” (2015). A visão de Naranjo foi tão importante para ampliar minhas perspectivas do educar, que eu gostaria de compartilhar aqui um pouquinho do que li. No livro, ele propõe reflexão acerca de uma urgente mudança de paradigma na Educação – seguindo uma transformação global emergente em diversas áreas humanas como Economia, Física, Administração, Psicologia, Política e Educação. Para Naranjo, a palavra que resume a urgente transformação multissetorial é “holismo”, na qual uma visão fragmentada e compartimentalizada daria lugar a um enfoque centrado no todo.

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Na Educação, isso significaria uma Educação holística, integral, que considera todos os enfoques e abarca a totalidade da pessoa: “uma educação da pessoa inteira para o mundo total”. Naranjo propõe uma Educação voltada para o desenvolvimento humano, que favoreça o surgimento de um novo ser humano, que responda aos desafios emergentes do mundo contemporâneo. Para o autor, uma Educação voltada para o desenvolvimento humano pressupõe a reconciliação da Educação com duas áreas, que por motivos e momentos distintos foram afastadas do ambiente escolar: a espiritualidade e a terapia. Naranjo enfatiza que crescimento e cura são aspectos inseparáveis do ser, e não se pode trabalhar a criança de forma fragmentada, desconsiderando o processo psíquico-espiritual que se dá no momento da aprendizagem.

O autor contextualiza que a sociedade autoritária, hierárquica e patriarcal, que se consolidou nos últimos anos, gerou uma proposta de Educação e formação que gera desequilíbrio entre os três cérebros humanos: o racional, o emocional e o instintivo (representados em algumas correntes pelos personagens arquetípicos do pai, da mãe e do filho). Este desequilíbrio está na valorização excessiva de aspectos racionais, másculos e patriarcais, e na repressão de aspectos maternos, emocionais e instintivos do desenvolvimento humano, gerando fragmentação e conflitos internos nos indivíduos que refletem em desarmonias e crises na sociedade.

Para Claudio Naranjo, o autoconhecimento experiencial deve ser pilar central de uma nova Educação, começando prioritariamente pela Educação dos educadores que devem ser transformados de forma holística, ampliando seu repertório interno, para assim assumirem um novo papel como educadores. A escola deve ser um espaço de formação para a liberdade e para a autonomia, já que um novo mundo só será possível a partir de indivíduos autênticos.

Na visão do autor a respeito do papel da escola, também se destaca a importância de serem trabalhados aspectos da formação, condução, facilitação de grupos e de lideranças comunitárias, visto que estes são desafios urgentes do mundo contemporâneo. Naranjo coloca que não há o nascimento do ‘eu’ no processo de autoconhecimento sem a necessária iluminação do ‘tu’, atribuindo um sentido profundo à palavra nós. A escola deve, pois, ser um espaço de experimentação do estar em grupo de forma harmoniosa, sejam estes grupos de tarefas ou grupos de decisão, ambas são situações para as quais os jovens serão frequentemente demandados ao longo de suas vidas.

Ao detalhar a abordagem curricular de forma mais específica, Claudio Naranjo afirma que uma Educação holística deve considerar todos os aspectos do desenvolvimento humano: o corpo (educação física), as emoções (educação emocional ou sensitiva), o intelecto (educação racional ou cognitiva) e o espírito (educação espiritual ou transpessoal).

 

O Corpo: Educação Física

A educação do corpo proposta por Claudio Naranjo vai além da concepção tradicional que tem-se de educação física, que visa propiciar forma e saudabilidade adequada ao corpo humano. Para ele, deve-se buscar a integração de abordagens e técnicas mais sutis de trabalhos corporais, que propiciem uma perspectiva corporal interna e externa, e que abarquem o desenvolvimento de atitude e atenção, além de treinamento sensório-motor.

O autor menciona as seguintes técnicas como inspirações curriculares que poderiam – e deveriam – ser aproveitadas pelas escola: ‘A Autoconsciência pelo Movimento’ de Feldenkreis, a ‘Eutonia’ de Gerda Alexander, a ‘Educação Psicomotora Relacional’ ou enfoques tradicionais como Hatha Yoga e Tai Chi Chuan.

Por fim, o autor menciona a importância de também serem trabalhadas as habilidades e o interesse por trabalhos manuais, sejam eles os fazeres domésticos, artísticos ou artesanais. Para qualquer aplicação, os trabalhos manuais têm alto poder curativo e são valiosos para o cultivo de virtudes como a paciência e a autossatisfação.

 

As emoções e os sentimentos: Educação Emocional

Ao abordar o segundo aspecto da educação holística proposta, a educação emocional, o autor destaca que esta tem como objetivo central o desenvolvimento da capacidade de amar, a si mesmo e ao próximo. Já é amplamente conhecida pela Ciência a influência que a capacidade de amar tem sobre a saúde e virtudes, bem como os impactos consequentes de uma geração de crianças criadas por pais e adultos emocionalmente imaturos, com dificuldade de amar a si mesmos e aos outros.

Naranjo sugere que a educação afetiva seja trabalhada de forma integrada à educação das relações interpessoais e ao autoconhecimento (autoestudo e autocompreensão), pois não há como separar estes três aspectos na prática experiencial humana. Na perspectiva do autor, a escola deveria ser um laboratório de comunicação humana, com experimentação avançada de práticas que facilitem a autocompreensão, a conscientização interpessoal e a aprendizagem comunicativa.

O ser humano pode ampliar significativamente sua capacidade de identificar seus sentimentos e comunicá-los de forma adequada, harmoniosa e construtiva, e a escola deveria ser um espaço prioritário para esse aprofundamento. Vale destacar aqui que Naranjo não diferencia emoção e sentimento, diferenciação esta que será proposta mais a frente neste trabalho, quando detalhado o corpo teórico da Abordagem Integrativa Transpessoal.

Para a educação emocional, as inspirações curriculares sugeridas pelo autor contemplam técnicas de dramatização e expressão, análise transacional, psicodrama, Gestalt (principalmente para a formação de educadores), com destaque para o Processo Fischer-Hoffman, também conhecido como Processo da Quadrinidade. Naranjo também destaca a importância da exploração do patrimônio literário e artístico mundial para a educação emocional, já que este se configura como um importante legado passado de coração para coração (assim como a Ciência configura um legado passado de intelecto para intelecto).

 

O Intelecto: Educação Racional ou Cognitiva

A educação racional – terceiro pilar da educação holística proposta por Naranjo – é o pilar que mais vem sendo trabalhado e discutido pela Pedagogia contemporânea, com foco na vertente cognitiva. O autor ressalta, porém, que essas discussões têm levado a reformas curriculares paliativas, que se efetuam em ajustes superficiais a conteúdos curriculares que se mantém prioritariamente os mesmos.

Naranjo enfatiza a importância de uma seleção mais drástica e profunda dos conteúdos necessários à Educação, ao que ele chama de ética da economia dos recursos educacionais e do tempo dos estudantes. Incluindo outras abordagens – que não apenas a mental – na educação holística, consequentemente se terá menos tempo para trabalhar os conteúdos cognitivos e é preciso selecionar o que é realmente relevante para o desenvolvimento humano e para a formação dos jovens para a vida plena.

Também com foco na otimização de recursos e melhor valorização do tempo e do capital humano dos educadores, Naranjo propõe uma maior exploração de recursos de aprendizagem como os jogos, a tecnologia e os recursos audiovisuais, que já demonstraram-se extremamente efetivos para o repasse de conteúdo e para a aprendizagem. O tempo dos educadores deveria ser usado prioritariamente para a mediação e facilitação dos processos interpessoais e aprofundamento da relação com os educandos.

Além da ética da economia, no campo da educação racional, há a ética da brevidade, na qual busca-se não sobrecarregar os cérebros e sistemas cognitivos dos educandos com excesso de informação desnecessária, prática bastante comum nos sistemas educacionais. Para educar “a pessoa inteira para o mundo total”, a educação cognitiva deve ter um equilíbrio entre o amplo e o específico, deve envolver generalismo e especialização, apropriando-se da corrente do pensamento integrativo.

O foco da educação cognitiva deve estar no desenvolvimento das habilidades cognitivas, e não no acúmulo de conteúdos e informação: os educandos devem aprender a aprender. Estudos já evidenciaram que não é a quantidade de conteúdo que influenciará a qualidade de vida ou a qualidade profissional do ser humano, mas sim as capacidades cognitivas que foram desenvolvidas e exercitadas no processo de aquisição e aplicação dos conhecimentos. Na educação racional, o foco deve mudar do externo para o interno, do aparente para o sutil.

Ainda dentro do desenvolvimento humano cognitivo, duas disciplinas são importantes: a matemática e a música – essenciais para o desenvolvimento harmônico dos hemisférios direito e esquerdo do cérebro. Das artes, Naranjo coloca a música como tendo um potencial elevado para o desenvolvimento da intuição, relacionada com o lado esquerdo do cérebro, e das Ciências, destaca a Matemática como disciplina prioritariamente importante para o desenvolvimento do potencial racional atribuído ao hemisfério direito do cérebro humano.

Como métodos e técnicas inspiradoras para o currículo escolar na educação cognitiva, o autor menciona os ‘exercícios do pensamento lateral’ de Edward De Bono, o ‘treinamento da análise das pressuposições implícitas’, o ‘pensamento dialético’ e a ‘educação não-verbal’, de Reuven Feuerstein. Para o ensino musical, o autor ainda sugere o ‘Método Orff’ e a ‘Eurritimia’, de Dalcroze.

 

O Espírito: Educação Espiritual ou Transpessoal

Por fim, o último aspecto da Educação holística, a Educação espiritual ou transpessoal, cujos aspectos centrais deveriam ser:

  • a desconstrução do ego, ensinando e auxiliando os educandos a transcenderem os seus próprios caráters e a atravessarem os processos de liberação de seus obstáculos interiores e,
  • a promoção e o cultivo de qualidades e virtudes que constituem o objetivo de toda meditação e prática espiritual como clareza, calma, liberdade, desapego, sacralidade, permitindo o florescer e o fluir do amor.

O autor contextualiza a separação histórica ocorrida entre Educação e Religião que acompanhou o processo de secularização e separação do Estado e da Religião, constituindo o estado laico. Naranjo observa que este processo, apesar de ter sido positivo para o desenvolvimento das sociedades e para atenuação dos jogos de poder assumidos por instituições religiosas, gerou um afastamento radical da temática espiritual na formação e desenvolvimento humanos, gerando uma ruptura desagregadora para o indivíduo. Para ele, a religiosidade/espiritualidade é como uma vertente inerente à natureza humana e portanto, necessária a qualquer Educação que se denomine holística.

Assim, a Educação holística deve oferecer a essência dos diversos ensinamentos espirituais de todo o mundo e de todas as tradições, enfatizando a experiência universal comum a todas elas. Idealmente, a escola deveria ser um laboratório das diversas práticas espirituais, propiciando aos alunos experiências diferentes e assistidas, que poderiam ser aprofundadas em momentos posteriores de sua vida, conforme o caminho de desenvolvimento de cada ser. Enquanto isso não for possível, o autor recomenda que ao menos se foque na prática de concentração e atenção plena, prática comum a todas as experiências espirituais.

Claudio Naranjo, em sua obra, reforça a importância de disseminação dessa visão holística para uma nova Educação. A expansão de consciência da humanidade naturalmente levará à definição de novos padrões educativos que respondam a esta nova consciência, porém é urgente que este processo seja acelerado.

Para tanto, é fundamental, como esforço prioritário, a educação dos educadores; é necessário que os adultos ampliem a percepção de si mesmos e dos aspectos de seu próprio desenvolvimento para que possam atuar de forma diferente e inovadora na Educação. Com este objetivo, Naranjo propõe um programa de formação, inicialmente desenvolvido para a formação de terapeutas, chamado Programa SAT (Seekers After Truth2), focado no desenvolvimento humano por meio de um currículo que engloba autoconhecimento, reeducação interpessoal e cultivo espiritual e que se vale de técnicas prioritariamente da meditação e da terapia. A aplicação deste programa junto aos educadores permitiria uma complementação holística à sua formação, sendo uma semente importante para a criação de novas práticas pedagógicas.

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Fonte: https://www.facebook.com/pg/FCNBrasil/photos/?ref=page_internal

 

Enfim, este é só um singelo resumo de uma visão reflexão profunda e bastante ampla que o autor faz sobre os sentidos da educação. Se quiserem aprofundar mais, sugiro ler o livro e os outros materiais de Claudio Naranjo, ou quem sabe participar de um dos Programas SATs. Tem também uma entrevista interessante que ele deu para a revista Época, nesse link.

Sigamos refletindo, como indivíduos inteiros para um mundo unificado. 🙂


Observação: este texto foi retirado de um trabalho acadêmico que desenvolvi sobre Psicologia e Educação, por tanto se você for usar peço que coloque as devidas referências:

CAPITANIO, T. S. Pedagogia da Inteireza: uma concepção Transpessoal de Educação – A importância da integração dos elementos do desenvolvimento psíquico na educação de crianças e jovens. Monografia (Especialização em Psicologia Transpessoal) – Faculdade Vicentina, Alubrat, São Paulo, 2017, 82f.

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