Aos adultos: trabalhemos em melhores versões de nós mesmos e deixemos as crianças em paz

Um dos movimentos da vida humana que tem me intrigado bastante é a nossa necessidade de construir a nós mesmo, para então, conseguirmos desconstruir. Me parece que precisamos fortalecer nossa auto-estima ao longo de nosso desenvolvimento para conseguirmos ser humildes, precisamos desenvolver um ego bem saudável para abandonarmos o egoísmo, precisamos conhecer nossa força para nos permitirmos ser fracos. A vida é mesmo uma experiência carregada de polaridades e dualidades, e as fases do desenvolvimento infantil e humano me parecem dançar por estas polaridades.

A criança bem pequena (bebê) não sabe que há uma separação entre ela e o mundo, para ela tudo é um conjunto de sensações agradáveis e desagradáveis. Quando ela cresce um pouquinho ela passa por uma fase bastante egocêntrica, onde tudo é ela e só existe o seu ponto de vista para as coisas. E depois ela vai aprendendo a relativizar a experiência de si perante a experiência dos outros. E então quem sabe passará a vida adulta toda tentando encontrar e experiência de unidade que (já) conheceu quando era um bebê.

Insect_Hoverfly_With_FlowerÉ como uma planta, que coloca bastante energia de desenvolvimento para fazer brotar sua linda flor, que talvez seja a melhor construção de si mesma. Mas ela não brota uma flor para ser a flor, para fazer a flor durar eternamente no seu apresentar-se ao mundo. Ela brota a flor apenas para entrar em relação. Em relação com os insetos polinizadores que serão por ela atraídos. Que proliferarão sua vida por aí. Ela brota a flor para entrar em relação, para gerar vida. E depois a flor morre e cai, e a planta reconstrói a si mesma, continuamente, para entrar em relação com a vida. Penso que com as crianças também acontece algo parecido, elas precisam construir a si mesmas, as suas melhores versões, para entrar em relação com a vida, para gerar vida, e para poder abondar a si mesmas e ir se (re)construindo continuamente ao longo da vida.

É uma dança intrigante, mas (para mim) fascinante. Me traz um senso de respeito para a fase de vida de cada criança e de responsabilidade sobre a forma que escolho estar ao seu lado em cada uma destas etapas. E é sobre isso que vou devanear aqui.

Eu percebi que se eu tomar as minhas referências e ambições de mundo enquanto adulta para o universo da educação infantil, eu posso cair em ideias distantes da realidade da criança e talvez que até sejam violentas por não respeitarem o momento de construção de si que a criança está vivendo. Por exemplo, no meu ideal adulto de relativização e amansamento do meu ego, posso não valorizar e respeitar a importância da fase egocêntrica da criança para o fortalecimento de si mesma. E por aí poderia dar diversos exemplos de nossos possíveis ideais adultos assumindo caráter violento na educação das crianças…

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Fonte: https://www.pinterest.com/pin/322429654558627103/

A questão que me parece estar por traz dessa relação é o constante mascarado e danoso desejo de projetar nas crianças as questões que gostaríamos de encontrar em nosso mundo adulto, e não encontramos. Ou melhor, gostaríamos de encontrar em nós mesmos e não encontramos. E nessa armadilha das relações, é um ato covarde escolher não trabalhar a questão em si mesmo, mas sim nas crianças, com a bonita bandeira de estar trabalhando para “uma nova geração que vai salvar o mundo”.

Nesta minha caminhada pela educação está ficando cada vez mais claro: se você quer um mundo mais justo, menos egoísta, mais amoroso, deixe as crianças em paz e trabalhe com a justiça, a humildade e o amor em suas próprias ações, palavras e relações. Trabalhe mesmo, com determinação e perfeccionismo. Pelo bem das novas gerações, deixemos as crianças em paz e ofereçamos a elas as melhores versões possíveis (e inimagináveis) de nós mesmos.

Ela não vai aprender pelo que você fala com a mesma intensidade que irá aprender com quem você é. Já cansamos de ouvir isso, é um conceito batido, mas sinto que é chegada a hora de levarmos isso mais a sério. Olhe ao redor e reflita sobre as versões de nós mesmos (adultos) que estamos oferecendo às crianças. Não consigo me convencer que este é o melhor que temos a oferecer.

Como eu falava acima, as flores existem para atrair os insetos polinizadores. Elas adotam cores lindas e chamativas, formatos dos mais variados, que são sempre adaptados ao inseto que a rodeia. Se ele tem bico longo a flor vai ser comprida, se ele se atrai por contrastes, a cor da planta vai apresentar o mais belo deles. E assim ela vai respondendo às características de vida que se apresentam na natureza ao seu redor.

Com as crianças, não me parece ser diferente (de forma metafórica e poética, claro. Por favor não se atenham às comparações minunciosas destas formas tão distintas de vida). Achar que a criança cresce e expressa suas melhores versões sem influência dos referenciais externos que possui, me parece uma ilusão. Somos seres sociais, relacionais, e isso nos define. O que você acha que acontecerá com as ‘flores’ de uma criança que encontrar adultos-insetos que assumem formas de raiva, intolerância, insegurança, cobiça? Que tipo de flor ela terá que desenvolver para atrair e entrar em relação com a vida que a cerca? A criança vai ser convidada a se adaptar ao que manifestamos enquanto ser em nós mesmos.

Então, estou convencida de que, para o bem da humanidade, precisamos apresentar às crianças e à vida que surge, a melhor versão de nós mesmos (a melhor mesmo!). Deixemos as crianças em paz e rondadas pelas melhores versões de nós mesmos, e ficaremos surpresos com as flores que brotarão por aí.

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