Autonomia e movimento: deixemos os bebês se movimentarem sozinhos

Imagem de um bebê no espaço Loczy, fundado por Emmi Pikler na Hungria.

Um dos assuntos que mais tem mobilizado minhas reflexões na observação de crianças pequenas, e principalmente, na observação da relação entre adultos (incluindo eu mesma) e crianças pequenas, é a temática da “autonomia” e toda a rede semântica que a acompanha: liberdade, independência, dependência, e por aí vai.

Diversas abordagens e referências na área da educação salientam a importância de a criança ter espaço e estímulo para manifestar sua autonomia, lidando com os desafios adequados a sua fase de desenvolvimento, sem a intervenção excessiva e inadequada dos adultos ao seu redor. Rudolf Steiner, Emmi Pikler, Maria Montessori, dentre outros filósofos, médicos e pedagogos salientaram que a criança tem papel ativo e protagonista em seu próprio desenvolvimento, e que o cuidado com um espaço adequado para o desabrochar de sua autonomia terá impactos profundos ao longo de toda a sua vida futura.

No primeiro setênio da criança (dos 0 aos 7 anos), um dos aspectos mais relevantes para o desenvolvimento de sua autonomia é o “movimento”. O domínio dos impulsos do seu corpo, a conquista dos ritmos de contração e relaxamento, os desafios do equilíbrio, a habilidade de colocar-se em posição sentada e ereta, dentre inúmeros outros aspectos ligados ao movimento, são explorações e conquistas essenciais para que a criança possa se apropriar do corpo humano ao qual habita, e para que possa desenvolver e conhecer suas competências, estabelecendo autoconfiança, resiliência e fortalecendo sua vontade.

Autoconfiança, resiliência, força de vontade são pilares construídos na primeira infância, justamente pela autonomia do movimento, e que sustentarão a morada física, emocional e espiritual da criança ao longo de sua trajetória de vida.

A maioria de nós adultos contemporâneos não teve este espaço para exercitar nossa autonomia quando pequenos, e carregamos diversas fragilidades em nossa própria autoconfiança, resiliência e força de vontade. Por este (e outros) motivos, estranhamos, questionamos e resistemos aos convites para darmos mais autonomia às crianças pequenas ao nosso redor. Deixar que o bebê se sente sozinho, que fique mais tempo no chão, que se levante para andar apenas quando conseguir fazer isso sozinho, que vista o seu sapato em seu ritmo, que suba na árvore sem ajuda, etc. São coisas que, na maioria das vezes, geram ansiedade e insegurança em nós adultos cuidadores.

Bebê andando com ajuda de adultos – exemplo do que NÃO fazer :p (imagem de unsplash.com)

Seja porque nos falta tempo para esperar e celebrar as conquistas das crianças, seja porque nos falta confiança nas capacidades, competências e determinação dos pequenos, seja porque nos falta coragem de conviver com seres que demonstram tamanha autonomia em tenra idade, ou seja porque nos falta segurança de que a nossa existência ainda terá algum sentido, mesmo que a criança – filho(a) ou aluno(a) – não dependa de nós para tudo nessa vida. Independente de quais os motivos por trás de nossa postura controladora, a verdade é que nós adultos muitas vezes temos dificuldade em ser coadjuvante no desenvolvimento da criança. E é justamente disso que elas mais precisam.

Sejamos o mais coadjuvante possível. Nos ocupemos em criar um espaço harmonioso, com os materiais e estímulos adequados, e principalmente, em sermos os melhores exemplos a serem imitados – em nossos pensamentos, ações e palavras. E nos desocupemos em colocar os bebês em posturas que eles não sabem chegar sozinhos, em dar as mãos para o bebe aprender a andar, em colocar as meias para a criança todos os dias, em dar comida na boca, e tantas outras coisas que privam estes pequenos seres humanos de entrar em contato com a força de sua própria vontade, e com a potência infinita de suas capacidades.

Como disse Emmi Pikler: “o essencial é que a criança descubra por si mesma o máximo de coisas possíveis. Se a ajudamos a solucionar todas as suas tarefas, a privamos justamente daquilo que é o mais importante para o seu desenvolvimento mental. A criança que consegue algo por experimentos autônomos adquire conhecimentos completamente diferentes dos de uma criança a quem se oferece previamente a solução.”

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