Krishnamurti | a educação para a liberdade

Falar sobre este autor é bem especial para mim, pois por um bom tempo eu mergulhei profundamente em seus textos, pensamentos e projetos. Eu tenho um perfil exageradamente intenso e apaixonado quando me interesso por algo – parece de certa forma eu tenho que mergulhar até as profundezas daquilo que me toca, e só posso seguir adiante quando tocar com os meus pés no fundo do poço. Krishnamurti foi um destes poços que mergulhei por um tempo: li muitos de seus livros, assisti incontáveis horas de suas palestras, visitei 3 de suas escolas pelo mundo, quase morei por um ano em uma delas. Naquela época eu cheguei a acreditar que toda a minha vida seria dedicada a compreendê-lo e ajudar a trazer para o Brasil sua visão de educação (sim, é nessa intensidade que mergulho nas coisas).

Pois bem, hoje esse mergulho já acabou, ou ao menos cessou. Ando nadando por outras águas, e olho para Krishnamurti com certo distanciamento, alguns questionamentos, mas ainda com muita reverência e amor por tanto que aprendo com esse ser que já se foi. O texto abaixo faz parte de um trabalho acadêmico que eu fiz, e pincela com humildade um pouco das reflexões que ele trouxe para a educação. Espero que desfrutem desse mergulho. 🙂

Jiddu Krishnamurti (1895 – 1986) foi um filósofo, educador e escritor indiano que desde muito jovem foi considerado pela Sociedade Teosófica como um dos grandes mestres da humanidade; responsabilizou-se pelo desenvolvimento da mesma que se constitui numa organização para disseminação de seus ensinamentos enquanto guia espiritual. J. Krishnamurti não aceitava o título de guia espiritual ou messias que lhe era atribuído e se incomodava com a multidão de seguidores que passaram a adorá-lo; por não acreditar no papel de nenhuma instituição para a busca da Verdade, aos 36 anos dissolveu a organização criada ao seu redor, assumindo um compromisso único com a liberdade humana. Krishnamurti afirmava que o homem deveria ser inteiramente livre em sua busca pela verdade, e que as instituições, religiões, dogmas, gurus e rituais só atrapalhavam sua libertação. 

É vasta a obra deste autor, englobando temas como revolução psicológica, a natureza da mente, liberdade, e de principal interesse para mim, Educação. J. Krishnamurti defendia ser necessária uma completa revolução na mente humana para que fosse possível uma revolução na civilização. Esta revolução só seria possível por meio do autoconhecimento e por uma Educação que permitisse o desenvolvimento do ser humano em termos de liberdade, senso crítico e criatividade.

Ainda em vida, fundou diversas escolas pelo mundo, para que as pessoas pudessem experimentar na prática, a filosofia de seus pensamentos sobre Educação. Além disso, não acreditava em qualquer tipo de autoridade, fosse ela personificada ou estabelecida em práticas pedagógicas específicas, pois qualquer caminho determinado como solução única, por uma autoridade externa, limitaria a liberdade humana e diminuiria o potencial da verdadeira Educação. Para o autor, a educação deve acontecer nas relações presentes em cada contexto, por meio de educadores conscientes de seus processos mentais e altamente comprometidos e amorosos com as crianças que os cercam: não é possível desenhar uma proposta que funcionará em qualquer contexto. A partir de relações verdadeiras e livres, surge um potencial criativo educador, genuíno de cada espaço educativo. Por este motivo, Krishnamurti nunca detalhou uma proposta pedagógica específica a ser seguida em suas escolas, mas deixou evidente alguns princípios norteadores de seu pensamento.

Abaixo, serão destacados alguns destes princípios, com a ponderação de que as reflexões de Jiddu Krishnamurti sobre a Educação são vastas, profundas e relacionadas a questionamentos significativos sobre a condição humana e a natureza de sua mente. Não será possível esmiuçar aqui a profundidade das reflexões trazidas pelo autor, mas apenas um superficial e singelo resumo de alguns dos pontos apresentados por ele.

O papel da educação

Em seu livro “A Educação e Significado da Vida” (1953), J. Krishnamurti reflete sobre o papel da Educação na sociedade, criticando o sistema educacional que serve aos interesses do capital e do mercado de trabalho; defende que a Educação deve permitir o florescer natural e integral do ser humano e prepará-lo para uma vida plena e pacífica. A Educação deve permitir aos educandos que conheçam melhor a si mesmos e aos seus processos de interação com o mundo, que reflitam sobre o sentido da vida e da existência, podendo contribuir para uma vida mais plena, com menos sofrimentos e conflitos. Segundo o autor,

“entender a vida é entender a nós mesmos, e este é tanto o início quanto o fim da educação”. (Krishnamurti, 1953, p. 13).

Para Krishnamurti, é nas escolas que se deve experimentar a forma correta de viver, sem que ninguém diga aos outros o que isso significa, pois na visão dele, não há fórmulas nem autoridades inquestionáveis. Cada um deve buscar por si próprio o sentido da vida correta e da verdade, e a escola deve ser um local onde isso não só seja possível, mas também seja incentivado e facilitado. 

Educação para a liberdade

J. Krishnamurti foi um grande defensor da liberdade humana e essa visão se perpetua em suas reflexões sobre a Educação. Para ele, liberdade é um estado da mente que se dá na atenção plena, não estando condicionada ao tempo e ao progresso, relacionada à liberdade dos condicionamentos da mente, dos padrões mentais construídos ao longo do tempo por influências históricas e culturais, a liberdade de autoridades, gurus e personalidades externas, e em uma reflexão mais profunda, a liberdade do eu, dessa energia que constrói o indivíduo enquanto ser limitado e delimitado do que o é externo.

Em seu livro “A arte de aprender: cartas às escolas” (2003, p. 60), sugere que o que deveria interessar à Educação é libertar a mente do eu, permitindo o florescimento de uma nova geração, livre dessa energia limitada e limitadora à qual chamamos de eu, pois é essa energia que gera seres humanos geradores de conflitos, medos, sofrimentos, expectativas e frustrações. Dentro desta perspectiva, se o educador estiver profundamente comprometido em atenuar o sofrimento de seus educandos e fazer com que não gerem novos sofrimentos, não há outro caminho se não favorecer a libertação dos condicionamentos da mente, a libertação do eu.

Krishnamurti difere liberdade de libertação, elucidando que liberdade não é o processo de libertar-se de algo, não é um processo evolutivo temporal e não é o oposto de escravidão. O estado de liberdade se dá com o fluir de uma energia não contaminada por condicionamentos, que surge no amor e na inteligência ampla – não no intelecto. (2003, p. 193).

Em um diálogo com alunos, retratado no livro “Ensinar e Aprender” (1980, p. 25), esclarece uma confusão comumente feita entre liberdade e desordem: não há liberdade sem ordem. Uma é condição da outra. Liberdade não é fazer apenas o que se quer, quando se quer, pois a real liberdade nasce de um silêncio interior e de uma escuta ativa e observadora do que está ao redor. A liberdade real não ignora os outros nem o que é externo porque o homem não vive isolado. Muitas pessoas fazendo apenas o que querem pode gerar conflitos, prejudicar os outros e a ordem geral, e assim não haverá liberdade.

O indivíduo precisa ser livre para observar com atenção, para escutar plenamente, para se fazer presente. Se souber ouvir, justamente por ser livre, optará pela ordem. É do ato de cuidar e se preocupar consigo (interior) e com o outro (exterior) que nasce a ordem, e consequentemente a liberdade. 

A integração e o problema da fragmentação

Na visão de J. Krishnamurti (1953, p.11 e 64), o ser humano vive em uma perspectiva fragmentada da sociedade e de si mesmo, perspectiva essa que gera contradições e conflitos. Há uma fragmentação entre os papéis que desempenha – trabalho, família, estudos, entre razão e coração, entre ciência e espiritualidade e entre todas as disciplinas do conhecimento. Esta visão fragmentada limita a perspectiva do ser humano para a totalidade da existência e para a interconexão das coisas. Os sistemas de Educação espelham e reforçam esta fragmentação nos espaços escolares, separando as disciplinas e reforçando funções cognitivas de forma não integrada, causando confusão na cabeça das crianças e jovens que se percebem um só, mas são constantemente convidados a se fragmentar.

A escola foi se desenvolvendo como espaço de valorização da razão e do conhecimento científico, e os sentimentos e a espiritualidade perderam espaço dentro desse ambiente. Porém, segundo o autor:

 “Nós podemos ser altamente educados, mas se estivermos sem a profunda integração de pensamento e sentimento, nossas vidas estão incompletas, contraditórias e rasgadas por muitos medos; e enquanto a educação não cultivar uma visão integrada da vida, ela terá muita pouca significação. (…) A educação deve trazer a integração dessas entidades separadas – pois sem integração, a vida torna-se uma série de conflitos e sofrimentos.” (Krishnamurti, 1953, p. 11).

Para Krishnamurti, liberdade e integração são as palavras-chaves da Educação. Segundo o autor (1953, p. 63), a Educação deve cultivar a inteligência e não apenas o intelecto. O intelecto é a razão em funcionamento, independente das emoções e sensações. A inteligência é maior que o intelecto, pois o contempla, e representa a junção de coração e razão, pensamento e sentimento.

Segundo artigo escrito pelo professor Krishna (2001), ex-reitor de uma das escolas da Fundação Krishnamurti de Educação da Índia, os aspectos físicos, intelectuais, emocionais e espirituais do indivíduo estão tão interconectados e relacionados que é impossível separá-los na Educação e na vida. Não é possível ter uma vida adequada em um dos aspectos e não nos demais. A Educação deve ser um reflexo disso.

Ausência do medo no processo educativo

Toda criança possui um interesse genuíno e nato pelo aprendizado e pelo seu autodesenvolvimento (idem, 1953, p. 31). O ser humano sente prazer e curiosidade em aprender desde o momento que nasce, mas a forma como a escola se organiza acaba por apagar essa chama de curiosidade. Com mecanismos de punição e recompensa, o sistema educativo mostra às crianças que é preciso ganhar algo em troca para se aprender, invalidando seu interesse genuíno. O medo é usado como ferramenta educativa desde muito cedo, porém é justamente ele – o medo – que é o principal inibidor do potencial humano. 

Krishnamurti defendia um modelo de Educação no qual o medo não exista e a conduta correta e a ordem sejam incentivadas sem a necessidade de geração de medo e punições. Este é talvez o maior desafio dos educadores, porém na visão do autor, se um comportamento é instaurado nas crianças usando estes mecanismos, isso representa uma falha dos educadores e não uma conquista. A ordem e a conduta devem ser estimuladas pela própria experiência da criança, pela descoberta e vivências das consequências de suas ações.

Ausência de autoridade e o valor da ordem

J. Krishnamurti, ao longo de toda a sua obra, refletiu sobre a relação entre a liberdade, a inteligência humana e a presença de autoridades. Ele coloca que o ser humano se relaciona com autoridades de diferentes formas, seja pelo conhecimento, pelas instituições, pelo poder ou pelo sucesso. O homem tende a exercer autoridade sobre os mais fracos e a sentir medo das autoridades mais fortes, e esta será sempre uma relação antagônica à liberdade e a inteligência:

 “Se o objetivo final é a liberdade, o começo também deve ser livre, pois o começo e o fim são um em si mesmo. Só haverá autoconhecimento e inteligência onde houver liberdade desde o princípio; e a liberdade é negada na aceitação da autoridade.” (Krishnamurti, 1953, p. 59).

Nenhuma ordem que se estabelece por imposição de um fator externo, de uma autoridade, gerará ordem interna nos indivíduos a ela submetida. A verdadeira ordem é estabelecida de dentro para fora, com base na experiência e não na imposição. Essa sim será uma ordem genuína e duradoura, favorecedora de liberdade. A disciplina imposta por autoridade externa gera conflito interno, e todo conflito interno terá alguma manifestação conflituosa em seu entorno.

Este é um grande desafio para a Educação que, de forma massificada, tem toda a sua estrutura baseada na existência de autoridades disciplinadoras. A proposta é a de uma Educação que favoreça a ordem e não a disciplina, ordem esta gerada pela experiência e inteligência dos próprios educandos, favorecida por um ambiente onde não haja medo. Na escola, o certo e o errado devem estar na experiência e nas sensações geradas pela ação – na auto-avaliação, se alimentam ou não o ego.

Professor Krishna (2001), ex-reitor de uma das escolas da Fundação Krishnamurti de Educação da Índia, traz uma explicação clara sobre esta questão:

“Devemos entender claramente que a ordem e a disciplina externas, por mais necessárias e úteis que sejam, nunca trarão ordem no interior. Por outro lado, se há ordem dentro, em nossas mentes, nossos sentimentos, nossos pensamentos, então a ordem externa e disciplina seguem como um corolário natural. Para dar um exemplo, se um homem não é ganancioso ou egocêntrico, ele não tem nenhum desejo de quebrar a fila em uma loja ou um ponto de ônibus e entrar antes de todos os outros. Você não precisa discipliná-lo ou colocar um policial lá para mantê-lo na fila. Ele estará no lugar certo naturalmente. Por outro lado, se você tem um conjunto de indivíduos gananciosos, você precisa de um policial para impor a ordem através do medo e a ordem é retida apenas enquanto o medo está presente.” (Krishna, 2001).

O papel do educador

J. Krishnamurti (1953, p. 98) afirmava que uma educação correta começa com o educador, que deve se autoconhecer e estar ciente de seus processos mentais, livre dos padrões estabelecidos. O educador não poderá transmitir nada diferente do que ele é, logo, deve construir por experiência própria em sua vida, a realidade que quer construir na educação das crianças. 

Este é o principal desafio da Educação. Não é a técnica, não é a criança, não é a sociedade, não é o sistema educacional, mas é a falta de conhecimento que os adultos – e consequentemente os educadores – possuem de si mesmos e de seus processos mentais e egóicos. Com uma observação minuciosa, rapidamente pode-se perceber que, na compreensão e domínio de seus padrões mentais, os educadores não são muito distintos dos educandos. Seus problemas são os mesmos e seus desafios também.

Enquanto o educador não tiver resolvido em si mesmo, a questão da liberdade perante autoridades, não poderá transmitir isso na Educação. Enquanto não tiver uma compreensão clara dos seus medos e dos limites por ele gerado, não será capaz de produzir um ambiente livre de medo, enquanto não adotar uma abordagem integrada perante a vida e perante o seu próprio ser, não será possível criar um ambiente de integração e sem fragmentação para os seus educandos.

Por este motivo, J. Krishnamurti afirmava que “estar preocupado com sua própria reeducação é muito mais necessário do que se preocupar com o futuro bem-estar e segurança da criança” (1953, p. 98).

Algumas pessoas acham J. Krishnamurti um pouco indigesto pela distância entre seu discurso (filosófico) e a prática cotidiana experienciada por muitos de nós. Eu sinto que ele foi um homem com um nível de consciência bastante elevado, e distante do que nós conseguimos compreender do lugar de consciência pelo qual experimentamos o mundo. Por isso, muitas vezes sua linguagem é mal compreendida, e sua filosofia pode “descer” para o campo da prática de forma tortuosa.

Para mim, lê-lo e estudá-lo foi incrivelmente benéfico, inspirador e revolucionário. Super recomendo! Abram suas mentes e mergulhem nesse poço sem volta. 🙂


Observação: este texto foi retirado de um trabalho acadêmico que desenvolvi sobre Psicologia e Educação, por tanto se você for usar peço que coloque as devidas referências:

CAPITANIO, T. S. Pedagogia da Inteireza: uma concepção Transpessoal de Educação – A importância da integração dos elementos do desenvolvimento psíquico na educação de crianças e jovens. Monografia (Especialização em Psicologia Transpessoal) – Faculdade Vicentina, Alubrat, São Paulo, 2017, 82f.

KRISHNAMURTI, J. Education and The Significance of Life. Hampshire: Krishnamurti Foundation Trust Limited; 1953. 128p. (Kindle Edition – ebook)

Site do Professor Krishna. Disponível em <http://www.pkrishna.org/What-Is-K-Education.html>. Acesso em 16 de maio de 2017.

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