Brockwood Park School: uma utopia possível

Belos e infinitos campos verdes. Majestosas árvores cujos troncos contam meio século de história. Charmosas estradas cercadas de árvores e pássaros. Brancas e peludas ovelhas a pastar nos arredores, anunciando o caloroso clima de aconchego. Assim foi minha chegada em Brockwood Park School.

Por dois anos eu quis estar naquele lugar. Idas e vindas, e-mails, processos seletivos, mudanças de vida, e finalmente o dia havia chegado. Brockwood Park School é uma escola residente, para jovens entre 14 e 19 anos, que fica na Inglaterra. Foi uma das escolas fundadas pelo filósofo J. Krishnamurti, fazendo parte da Fundação Krishnamurti.

Brockwood é mais do que uma escola, é um complexo de coisas, é uma verdadeira comunidade. Nos arredores desse lindo espaço estão:

  • um centro de estudos para adulto (Krishnamurti defendia que toda escola deveria ter ao seu lado um espaço para o autodesenvolvimento dos adultos), onde há cursos, retiros, bibliotecas e acervos.
  • a própria Brockwood Park School, onde moram mais de 100 pessoas, entre jovens, educadores, e aprendizes, compartilhando uma verdadeira vida em comunidade.
  • a Inwoods Small School, uma escola para os anos iniciais do ensino fundamental, também inspirada nos ensinamentos de J. Krishnamurti, porém com atuação independente.

Eu entrei em Brockwood pela sala-de-estar. Um aconchegante espaço com sofás, um piano sendo gentilmente tocado por um jovem garoto. Algumas grandes mesas de refeição, ocupadas por outros grupos de jovens. Alguns lendo, escrevendo, outros conversando. Um clima silencioso, ameno, tranquilo. Grandes janelas de vidro permitiam ver uma linda área verde lá fora, alguns jovens sentados na grama, outro tocando violão. Uma majestosa árvore a esquerda abrigava uma jovem empulerada. Ninguém no celular. Ninguém no WhatsApp. Este é um combinado de Brockwood: não usamos o celular enquanto estamos naquele espaço.

Caminhei mais por aquele casarão, que mais parece um castelo. Encontrei uma ampla cozinha profissional, habitada por jovens limpando e preparando coisas. Um lindo jardim, com hortas e plantações. Um viveiro. Ao lado, um outro jardim com flores e bancos para o silêncio e a contemplação. Um estúdio de música. Uma ampla sala redonda, para encontros, danças, recitais. Um estúdio de artes de perder o fôlego: pranchetas, quadros, tintas, esculturas, muita alma viva naquele espaço.

Vi muitas coisas em meu primeiro caminhar de recém-chegada, menos uma sala de aula. E isso é o mais aconchegante daquele lugar: não tem cara de escola, pelo menos não das referências estereotipadas que eu carrego dentro de mim. Brockwood é um lar, uma grande casa, das mais aconchegantes possíveis, onde moram 70 jovens de 25 países diferentes. Junto com 30 adultos também bastante diversos. E a morada é a escola, da mesma forma como a vida é o aprendizado.

Um lindo vídeo curtinho sobre a escola.

Nas palavras da própria equipe de Brockwood, “a Escola é profundamente inspirada pelos ensinamentos de J. Krishnamurti, que incentivam a excelência acadêmica, autocompreensão, criatividade e integridade em um ambiente seguro e não competitivo. A educação Brockwood vai além dos tipos mais tradicionais de aprendizado. Não exclusivamente acadêmica, sua missão é ajudar os alunos a aprender a arte de viver, reunindo aspectos de aprendizagem, sensibilidade, mente aberta e autorreflexão, que são muitas vezes ignorados.”

Eu fui lá conhecer porque os estudos sobre a visão de educação deste filósofo me impactaram bastante, e também porque eles possuem um programa de formação de professores chamado Teacher Apprendice. Os participantes ficam um ano como residentes na escola, trabalhando, aprendendo e se desenvolvendo como professores a partir da experiência prática. Eu queria participar desse programa, e estava lá para passar uma semana com eles como parte deste processo. A coisa foi caminhando e eu quase passei um ano naquele lugar! Isso se a vida não me reservasse outras preciosas surpresas que me fisgaram aqui no Brasil.

Para quem tiver curiosidade de conhecer um pouco mais, eu coloquei abaixo os aspectos de Brockwood que mais me marcaram. Como eu visitei a escola há 2 anos atrás pode ser que algumas coisas sejam diferentes hoje em dia. 🙂

Vida em comunidade

Brockwood Park School é mais do que uma escola, é uma comunidade. Alunos e educadores vivem no mesmo espaço – em um modelo “internato”- , compartilhando a vida como um amplo espaço de investigação de si mesmo, do viver em comunidade de forma harmônica e pacífica, e do aprendizado sobre a vida e o mundo. São cerca de 100 pessoas vivendo juntas, sendo 70 delas jovens estudantes.

Eles acreditam que nessa fase da vida, a juventude, ter a experiência vivencial na escola faz parte de um momento importante de conquista de autonomia, investigação pessoal e separação das interferências externas, desenvolvimento da visão crítica e expressão individual.

Inquiry Time (Tempo de Inquérito)

“Tempo de Inquérito” é um momento compartilhado por toda a comunidade da escola, onde mergulha-se coletivamente em questões relacionadas ao ‘viver junto’. As questões podem ser bem específicas e tangíveis, como: “nós nos sentimos em casa na escola?” “Como podemos cuidar do espaço escolar?”, mas também podem ser amplas e subjetivas, como: “o que é liberdade e como ela se relaciona com a responsabilidade pelos outros e pelo mundo ao nosso redor?” 

O “Tempo de Inquérito” é central para Brockwood e é um fórum onde todos podem explorar as questões relacionadas a suas vidas.

Trabalhos e grupos matinais

Brockwood Park é um espaço gerido de forma colaborativa por todos que ali habitam. Não há funcionários específicos responsáveis pela faxina e cuidados da escola, e isso passa a ser função de todos.

Todas as manhã, após o café-da-manhã e antes de começar o dia, durante 30 minutos, estudantes e educadores se dividem em tarefas que colaboram com a limpeza e organização da escola, ou se organizam em grupos para tratar de questões prioritárias para a gestão do espaço.

Além disso, nos fins de semanas, pequenos grupos de educadores e jovens são rotacionados para mutirões de cuidados no espaço.

Círculo da manhã e o silêncio

O dia em Brockwood começa com um encontro matinal no qual educadores e educandos sentam juntos, em silêncio, durante 10 minutos. Não é um encontro obrigatório, mas é uma forma de começar o dia com consciência e atenção ao presente, ao ambiente (incluindo atenção a todos os sentidos) e a si próprio (incluindo o próprio corpo e os movimentos dos pensamentos e sentimentos).

Assembléias

Diariamente, após o café da manhã e os trabalhos matinais de cuidado do espaço, toda a comunidade de alunos e educadores se reúnem em assembleia. Em alguns dias da semana a assembleia tem caráter mais reflexivo e silencioso, em outros dias são compartilhadas novidades, projetos, pensamentos ou leituras. Toda a assembleia se encerra em um espaço de silêncio compartilhado.

Além disso, aos domingos à noite e sextas-feiras ao final do dia, uma assembleia é realizada para inaugurar e encerrar a semana, além de verificar a presença segura de todos os jovens no espaço escolar.

Sistemas de tutoria

Cada aluno de Brockwood recebe atenção e assistência pessoal específica de um adulto/ funcionário educador. O tutor preza por acompanhar o bem-estar geral do aluno, e muitas vezes é por meio desse relacionamento que os alunos são encorajados a explorar as intenções mais profundas de Brockwood e a influência destas em suas jornadas de vida.

Além do tutor, cada aluno possui um ‘supervisor acadêmico’, com quem se reúne semanalmente para o acompanhamento e aconselhamento acadêmico.

Currículo

O currículo e organização de Brockwood se deriva de amplas intenções declaradas pelas escola:

  • educar o ser humano de forma integral
  • despertar a inteligência e florescer a bondade
  • descobrir a excelência nos estudos acadêmicos
  • aprender sobre o cuidado adequado, o uso e os exercícios do corpo
  • aprender a apreciar o mundo, ver o seu próprio papel nele e sua própria responsabilidade por ele
  • aprender sobre si próprio e o mundo interior
  • compreender a natureza da aprendizagem
  • descobrir os próprios talentos e o significado do viver correto

Cada aluno possui um currículo e agenda diária bastante customizado/ individualizado, porém de forma geral o currículo de Brockwood se aprofunda em 5 elementos:

  1. Cursos comuns: obrigatório a todos os estudantes, são os cursos de “Tempo de Inquérito” e “Ecologia Humana”
  2. Cursos centrais: Artes & Ofícios, Humanidades, Ciência & Matemática. Requeridos para estudantes menores de 16 anos, que selecionam um curso por vez. Cada curso dura 7 semanas consecutivas. 
  3. Cursos temáticos: duram 7 semanas e focam em tópicos específicos e variados (ex: ‘padrões e quebra-cabeças’, ‘cultura indiana’, ‘movimentos do corpo’). Para cada curso o educador oferece introduções e atividades para que o grupo olhe para o assunto de diferentes perspectivas, e então os alunos podem direcionar o seu trabalho de diferentes formas. 
  4. A-Level Courses: cursos oferecidos para estudantes acima de 16 anos, que tem como foco central os assuntos acadêmicos priorizados pelas universidades, de acordo com o interesse dos alunos.
  5. Projetos: são propostos pelos próprios estudantes e variam muito em temas e em duração. Tem acompanhamento dos educadores.

Mature Studentes (alunos maduros):

São jovens adultos, normalmente entre 21 e 30 anos, que integram a equipe da escola em um programa de 11 meses. Durante o período, os “Estudantes Maduros” podem aprofundar suas investigações sobre a vida à luz dos ensinamentos de Krishnamurti. 

Os “Estudantes Maduros” trocam 20 horas semanais de trabalho na escola por acomodação e alimentação. Eles moram com os educadores e alunos, e são uma parte central da comunidade. 

Para os alunos do ensino médio também torna-se valiosa a oportunidade de convivência com jovens mais velhos, com diferentes backgrounds e visões de vida.

Para conhecer mais sobre Brockwood Park School, acesse o site deles.

Para conhecer mais sobre a visão de Krishnamurti, leia este post.

Para conhecer mais sobre Inwoods Small School, leia este post.

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